Ética e comunicação social

Revista O primeiro dos quatro números de 2007 da Communio – Revista Internacional Católica, dedica-se a “Ética e comunicação social”, tema sempre actual, ou não vivêssemos numa “cultura comunicacional”, descrita por António Rego como “espécie de chuva miudinha trazida por ventos de todas as direcções, que nos olha até ao âmago”. A ela, prossegue o padre director do programa “Oitavo Dia”, da TVI, “não conseguimos escapar”. “Trata-se do ambiente, do ar que se respira, do envolvimento em todos os recantos da existência, da permeabilidade de qualquer ser ou comunidade, a este olhar e dizer do mundo que habitamos. A esta forma de sentir a existência. E quando se intromete o sentir, estala uma espécie de sismo global que faz estremecer todo o sistema de vida, concepção do homem, perspectiva de futuro. Estamos no centro da cratera de um vulcão que vomita fogo ou cinza. E a nossa presença alimenta essa convulsão, ainda que seja com um respirar passivo”, escreve Pe António Rego.

Para esta reflexão sobre a comunicação social contribuem ainda o teólogo dominicano Christian Duquoc (“Os ‘media’ e o cristianismo”), o cardeal Karl Lehmann (“Competência dos ‘media’ e res-ponsabilidade”), D. Manuel Clemente (“Na agenda mediática do tempo e da cultura”), a COMECE (“Reflexões sócio-éticas sobre o futuro da política da União Europeia para os ‘media’ numa sociedade da informação”) e António Marujo.

Do jornalista do “Público” é publicada a comunicação que proferiu a 23 de Outubro de 2006, ao receber pela segunda vez o Prémio Templeton, que distingue jornalistas que trabalham temáticas religiosas na imprensa não confessional. António Marujo fala de “equívocos” e “possibilidades”, “histórias de menosprezo, omissões e (ir)relevâncias”, entre a religião e os ‘media’, nos dois sentidos. Refere como se constrói uma agenda noticiosa omitindo notícias importantes (como o pronunciamento de João Paulo II contra a Guerra do Iraque, ou a favor do perdão da dívida externa dos países do Terceiro Mundo), mas repetindo a oposição dos bispos à liberalização do aborto, por exemplo, a qual, por ser constante, “em sentido próprio, não é notícia”. Refere igualmente alguma sobranceria dos responsáveis eclesiais, como a daquele “importante porta-voz [que] só estava disponível [para a comunicação social] entre as 9h e as 9h30 da manhã”.

Recorrendo ao pensamento do investigador Manuel Pinto, que afirma que a Igreja tem utilizado as metáforas do púlpito e do areópago para falar dos ‘media’, António Marujo afirma: “Em muitos casos, os ‘media’ continuam a ser olhados, por responsáveis e agentes religiosos, como um instrumento para a comunicação unidireccional e assimétrica, como um púlpito de formas modernas. E esse é um dos equívocos mais graves”, por desconhecimento da linguagem e do tempo próprio dos ‘media’. Pensados como areópagos dos tempos modernos, os ‘media’ serão antes um espaço público, fornecedores de temas e de formas, evocadores e construtores do que nele ocorre.

J.P.F.

Outros temas deste número

A segunda parte da revista, dedicada às Perspectivas (testemunhos, experiências e ensaios fora do tema geral do número), apresenta um texto de Peter Henrici (bispo emérito de Chur, Suíça), sobre a relação de Hans Urs von Balthasar com o II Concílio do Vaticano. O teólogo suíço foi o grande ausente do Concílio, mas a sua teologia está bem presente.

Segue-se o ensaio do jesuíta Samir Khalil Samir, sobre “A Europa e o Islão, Encontro e Desafio”. Egípcio de nascimento, Samir Samir reflecte sobre os temas que vêm à cabeça dos europeus quando se fala de Islão: fundamentalismo, a proibição do véu dito “islâmico”, a construção de mesquitas ou a exigência de cemitérios separados para muçulmanos.

Em entrevista, o investigador francês Yann Terrien fala da dimensão religiosa do cinema de Alfred Hitchcock (proveniente de uma família católica e educado por jesuítas). Afirma Terien: “O ‘suspense’ hitchcockiano é por natureza religioso: na medida em que coloca os personagens no centro de uma provação, ele convida ao mesmo tempo o espectador que se identifica com aqueles a participar das suas aflições. No final de um percurso que se tornou o seu, ele abre-se ao ponto de vista humano, e eleva-se espiritualmente”.

Este número da Communio termina com o testemunho da jornalista Marta Roque sobre “a aventura da conciliação da vida familiar com o trabalho”.

O único local de venda desta revista na região de Aveiro é a Livraria Santa Joana.