Eu, pecador, me confesso
de nem sempre saber sorrir;
de nem sempre saber ouvir;
de nem sempre saber compreender e ajudar;
de passar por tantos a precisarem da partilha de mim e avançar em frente:
de me calar, ao ver e ouvir tanta hipocrisia;
de falar sem ser preciso, com tantas pessoas e situações a reclamarem a minha voz;
de não sentir nada diante de tanta dor e de tanta injustiça.
Eu, pecador, me confesso
de medos que não sou capaz de vencer;
de comodismos que não sou capaz de superar;
de desânimos que não me deixaram sair de mim;
de egoísmos que puseram os outros fora dos meus cuidados;
de gostos que me fizeram esquecer o para que sou;
de ressentimentos que fizeram reduzir
o sentido do Pai-Nosso que tantas vezes rezo;
de preconceitos que me levam a dividir o mundo
e a malsiná-lo sem razão;
de certezas que não me permitem comungar vida e ideias.
Eu, pecador, me confesso
de ver tanta lágrima e não a enxaguar;
de contemplar tanta chaga e voltar a cara;
de ouvir tantos gritos e fugir;
de saber de tantos náufragos e de não correr a salvá-los;
de encontrar tanta gente sem norte e não lhe indicar o caminho;
de ver tantos e tantos caídos ou a caírem
e não lhes lançar a mão;
de ver e conhecer tanta gente que perdeu as razões de viver, e continuar sentado à minha mesa feliz e
a dormir sem pesadelo.
Eu, pecador, me confesso
porque não tenho cantado,
como devia,
a beleza da vida,
a imensidade do amor de Deus,
o valor da fraternidade,
a importância da justiça e da paz.
Eu, pecador, me confesso
porque não tenho sido esperança,
não tenho semeado a esperança,
não tenho gritado a esperança.
D. Manuel Martins,
Bispo emérito de Setúbal
Nota da direcção: Na edição de 15 de Março, publicou-se, na página 4 (“Jovens”), o texto “Eu, pecador, me confesso”. Sem referir o autor, tal texto surgiu no guião do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil como uma das propostas de reflexão para a presente Quaresma.
Posteriormente, ficamos a saber que o autor de “Eu, pecador, me confesso” é D. Manuel Martins, Bispo emérito de Setúbal. Ao Sr. Bispo – e aos leitores –, as desculpas que nos competem. Reproduzimos nesta edição o texto completo.
