“Eu te vi quando estavas sob a figueira” (Jo 1, 48) – Parte III

Li e meditei num testemunho com interesse; nele as minhas vísceras acusaram o golpe: “Falo em termos gerais. Sei que há grupos espirituais que acolhem o sacerdote e que podem consolá-lo e confortá-lo. Também é verdade que a situação, mais ou menos desértica, que alguém pode viver é vivida de modo diferente quando se está bem, por dentro, quando se está “lubrificado”. A própria realidade me fala de diferentes maneiras segundo eu esteja afinado ou não. Lembro-me de um amigo que me veio dizer que ia deixar o ministério porque – disse-me ele – a Igreja está muito mal. “Olha, por essas mesmas razões eu continuo”, lhe respondi. Por quê? Porque isso depende do clima vital e espiritual que se está vivendo” (URIARTE, Juan Maria, A espiritualidade do ministro presbiteral, Edições Loyola, 2000, p.41). Concordo e discordo, da análise paradoxal, porque já a vivi, em sofrimentos pessoais e pastorais, comigo e com outros; por essa razão, esta reflexão e o apuramento das causas ainda está para durar. Ou se aprende com Amor, ou na Dor.

Há um senso de humor que só pode ser sentido quando se está além da mente, do bem e do mal. É a experiência de “ficar emburrado”; a pura “mixagem” na sucessão destes “causos” humanos e suas “causas” complexas, deixaram-me “emburrado” (mais “erudito”, non-sense) e por isso, agora, preciso de “desopilar mais”, isto é, confessar-me melhor, isto é, converter-me, mais dentro e fundo. E converter é querer só o Evangelho, dom maior, de quarta-feira de cinzas. Não o Evangelho “travestido” de magistério. Mas o Evangelho que se fez-faz-fará tradição da memória profética de Jesus, que foi considerado o Cristo. O Evangelho que me con-verte afirma para o diagnóstico em causa um prognóstico terapêutico grave e natural: “Nada há de encoberto que não venha a ser revelado, nem de oculto que não venha a ser conhecido. Portanto, tudo o que tiverdes dito às escuras, será ouvido à luz do dia, e o que houverdes falado ao ouvido nos quartos, será proclamado sobre os telhados”(Lc 12,2-3). O “sob a figueira”, é estar sob as Escrituras (pormenor significativo na ordenação dos bispos!?), dar-lhe o primeiro e o maior Sentido em nossas vidas cristificadas.

Não tenho essa Vocação para ser mártir dos homens ou palhaço de Deus; Ele não me permitiria. São as atitudes existenciais que acumulam grande tensão de compro-misso, que geram a Vida abundante. Os “abandonos” não são de “ontem”, nem muito menos de “amanhã”; são feitos num presente opres-sivo e libertador. Ao telefone imagino que me foi dito: “Não está aqui na paróquia, não adianta ligar mais tarde…não está aqui”. Pronto, não está aqui! É porque ressuscitou, verdadeiramente, Deus o segurou para lhe dar a vida por inteiro!

Termino com uma história. Passeio por um caminho solitário. Desfruto do ar, do sol, dos pássaros e do prazer de ser levado pelos meus pés para onde quer que eles me levem. De um lado do caminho, encontro um escravo a dormir. Aproximo-me e descubro que está a sonhar. Pelas suas palavras e expressões adivinho… Sei o que sonha: O escravo está a sonhar que é livre. A expressão do seu rosto reflecte paz e serenidade. Pergunto-me…Devo acordá-lo e mostrar-lhe que é apenas um sonho, para que saiba que continua a ser um escravo? Ou devo deixá-lo dormir o tempo todo que puder, desfrutando, nem que seja apenas em sonhos, da sua realidade fantasiada? (Cfr. Sofisma socrático citado por L. Klicksberg). Qual é a resposta correcta? Sua resposta? Nossa resposta de Igreja? Se eu for o ESCRAVO SONHADOR, por favor, acordem-me! Serenamente, não deixemos mais, que o Rei vá (continue) NU! Pior cego é o que não quer ver!