Questões Sociais Passada a fase das primeiras reacções perante a «Cimeira Europa-África», justifica-se deixar esboçadas aqui algumas notas para nossa reflexão e prática futuras. A Cimeira não foi um sucesso nem uma simples exibição de poder e de desperdício; foi, porventura o que era possível na altura, a favor da cooperação entre os povos nela representados.
Independentemente da Cimeira já havia cooperação; mas faltava a clarificação de relações. Já existiam esforços a favor da justiça nas relações comerciais, dos direitos humanos e do desenvolvimento; faltava, porém, a visão de conjunto, o reconhecimento de incorrecções e um forte impulso para a congregação de esforços. Tal impulso foi dado pela Cimeira e pelo que ela suscitou: – alertas, críticas, apresentação de alternativas…
Esta importante reunião aconteceu na altura em que terminava o quadragésimo aniversário da encíclica de Paulo VI sobre o «desenvolvimento dos povos» – «Populorm Progressio». Esta contém várias propostas aplicáveis às relações Europa-Áfirca, nos dias de hoje. Anoto em especial a identificação de um grande objectivo a alcançar: «a busca de meios de organização e de cooperação (…) para pôr em comum os recursos disponíveis e realizar, assim, uma verdadeira comunhão entre todas as nações» (nº. 43 e 44). Em termos de actividades correntes, a encíclica realça: o acolhimento de imigrantes; a ajuda contra a fome e outras carências; o apoio técnico-económico; e a equidade nas relações comerciais. Para além, e na base, de tudo isto propõe: a aprovação de convenções internacionais; a criação de um «fundo mundial», para «auxílio dos mais deserdados», sendo «sustentado por uma parte da verba das despesas militares»; e uma «autoridade mundial» promotora de «laços de solidariedade». Segundo a encíclica, todo este esforço deve ter na sua base o diálogo, incluindo o diálogo de civilizações, e a consequente assunção de compromissos. Na perspectiva cristã, deve basear-se também na oração.
Não é legítimo afirmar que a «Populorum Progressio» detém o exclusivo das linhas de orientação para os problemas em presença nas relações Europa-África. Na verdade, orientações semelhantes foram defendidas, antes e depois da encíclica, por várias correntes de pensamento e acção. E pode afirmar-se também que as orientações necessárias para a solução de tais problemas não se situam, exclusivamente, ao nível dos princípios; estes são indissociáveis de aspectos processuais complexos que, por sua vez, dependem de posições políticas diferenciadas, bem como de interesses muito fortes e de correlações de forças quase ingovernáveis. Acresce que a própria Europa se debate hoje com enormes dificuldades.
É, porém, legítimo afirmar que a encíclica ocupa uma posição honrosa na procura de soluções para aqueles problemas e para o «desenvolvimento dos povos» em geral. Os seus ensinamentos apresentam ainda a vantagem de inspirar a conjugação do desenvolvimento pessoal e local com o nacional e o global. Os títulos das duas partes traduzem claramente esta conjugação: um respeita ao «desenvolvimento integral do homem»; e o outro ao «desenvolvimento solidário da humanidade».
