Questões Sociais O excesso de dinheiro (abordado no artigo anterior) significa a existência de montantes financeiros muito elevados, o seu esbanjamento ou incorrecta aplicação, a atribuição de relevância exagerada ao papel do dinheiro, o poder exagerado exercido pelos seus detentores e gestores, públicos e privados, a concentração de riqueza em entidades privadas… Tudo isto se encontra associado a graves problemas sociais de desigualdades gritantes e de pobreza e exclusão.
No domínio específico da acção social, destinada às situa-ções de maior carência, realçam-se dois tipos de excessos: a aplicação incorrecta do dinheiro; e a relevância alienante que lhe é atribuída. Esta relevância, conjugada com o poder exagerado atribuído a quem gere os dinheiros públicos, veio criar um novo tipo de desigualdades e de exclusão, que é de natureza institucional: os gestores dos dinheiros públicos situam-se no topo da pirâmide do poder operacional; seguem-se-lhes os serviços da segurança social e das autarquias locais; em terceiro lugar, encontram-se as instituições particulares; em quarto, o voluntariado social de proximidade; e, em último, a entreajuda de familiares, vizinhos e amigos. As pessoas pobres encontram-se, não no centro de atenções, mas sim abaixo de todo o enquadramento institucional.
Estas desigualdades institucionais não vêm sendo objecto de atenção política. E até parece existir unanimidade, a seu favor, nos partidos políticos, nas confederações sindicais e patronais, bem como nos comentadores «mais influentes»; todos parecem actuar como se a solução dos problemas sociais consistisse, fundamentalmente, no aumento dos meios financeiros a eles destinados. Um exemplo desta visão ficou bem patente nas reacções às medidas de austeridade anunciadas, no final de Setembro, pelo Governo; a contestação foi geral, mas nenhuma força, nem o próprio Governo, procurou atenuar os efeitos das medidas, fora dos parâmetros financeiros. Especialmente, não se prestou atenção ao imenso trabalho de acção social realizado, com pouquíssimo dinheiro, pela entreajuda e pelo voluntariado de proximidade; sabemos que esta acção nunca poderá ser suficiente, mas também sabemos que pode gerar dinamismos de atenuação e de esperança. Infelizmente, porém, devido à obsessão e opressão do dinheiro, parece que as forças sócio-políticas antes querem abandonar inúmeras situações de pobreza e exclusão do que respeitar e cooperar com intervenções sociais não dispendiosas.
