História D. Carlos Ximenes Belo
Administrador Apostólico Emérito de Dili
e Prémio Nobel da Paz 1996
Após a proclamação da República, no dia 5 de Outubro de 1910, e a adesão da Província de Timor ao novo regime, o capitão José Carrezeda de Sousa Caldas Viana e Andrade fez publicar, no dia 25 de Novembro, o decreto da expulsão dos jesuítas e das canossianas. Assim dizia o superior da Missão, padre José Neves: “Há quatro dias apareceu publicado o decreto sobre a expulsão dos jesuítas, religiosos e religiosas”.
O Secretário do Governo telegrafou para Lisboa pedindo instruções sobre a saída e as passagens. Foram expulsos os padres Manuel Ferreira Fernandes e José Marques Atalaia e dois irmãos leigos, o Ir. António do Amaral e o Ir. António Claudino. O padre Sebastião tinha ido a Macau no dia 24 de Outubro para tratar da saúde. A ordem da expulsão de Soibada, onde estavam desde 1899, foi-lhes comunicada por um sargento, que era comandante no posto de Laclubar.
Com dor e tristeza, os jesuítas tiveram de abandonar a florescente missão por eles iniciada em finais do século XIX. No dia partida, 9 de Dezembro de 1910, os jesuítas tinham no colégio 76 alunos internos, que ficaram abandonados a si próprios. Antes de saírem definitivamente Timor, enquanto aguardavam o dia do embarque, os jesuítas hospedaram-se na Missão central de Lahane.
Qual seria o destino dos jesuítas? Diz-nos o cronista: “Sobre o destino a dar-lhes fez o governador com os membros do conselho, sendo, como era de esperar, encontrados os pareceres. Uns opinaram que se metessem no primeiro vapor, e se lhes abonasse a passagem só até Atapupo, na costa holandesa de Timor. Outros, em maior número, entenderam que era desairoso a Portugal não pagar viagem aos padres sequer até à missão portuguesa de Singapura. Esta opinião prevaleceu”. No dia 23 de Dezembro, o padre José Neves, Superior e Vigário-Geral das Missões do Viacariato do Norte, com sede em Lahane escrevia ao Bispo de Macau: “Envio n’esta data um telegrama a V. Ex.cia, participando a sahida dos P.es S.J. e anunciando a sahida das Madres para Hong-Kong a próxima mala directa que se espera em 1 ou 7 de Fevereiro”. Portanto, os quatro jesuítas saíram de Díli com destino a Singapura no barco holandês no dia 23 de Dezembro de 1910. A 12 de Janeiro de 1911, chegaram a Singapura, onde foram acolhidos pelos padres João Gonçalves e Sebastião Aparício da Silva, idos de Macau. No dia 13 do mesmo mês, os jesuítas embarcaram no vapor a mala holandesa com destino a Allepey, aonde chegaram no dia 21. Sobre a viagem dos jesuítas, o padre José Neves, na sua carta ao Bispo de Macau, informava que o Governo pagara as passagens aos P.es Ferreira e Atalaia em 1.ª classe até Singapura. Aos irmãos deram dinheiro para a 2.ª. Mas depois acrescentava: “Parece que irão todos quatro em 2.ª classe”.
Com a saída dos padres, ficaram em poder do Estado os edifícios, a saber: a igreja, a residência dos padres e o colégio masculino e o colégio feminino, contrariando o pensamento do padre José Neves que havia informado a secretaria do Governo que “tudo o lá há pertence às missões, não podendo ser confiscado como propriedade dos jesuítas”.
Ajustes nas missões
Para não deixar ao abandono a Missão central da Soibada e os colégios, o Padre José Neves escreveu ao Senhor Bispo, D. João Paulino de Azevedo e Castro, sugerindo a conveniência de reunir as duas Missões de Lahane e de Soibada. O mesmo padre Neves recomendou ao padre Manuel Ferreira que, antes de sair, entregasse o cuidado da missão ao encarregado da Missão de Barique, o P.e João Lopes. Com a presença do Padre Lopes, pensava-se que, pelos menos, as actividades pastorais e educativas, na Missão central e nas estações missionárias, não ficariam interrompidas. Mas a realidade foi bem diferente. Anos mais tarde, relatava o padre João Lopes sobre os primeiros dias em que passou na Missão de Soibada: “Logo em seguida à minha vinda para aqui, principiavam os arrolamentos judiciais dos bens da missão, que começaram a ser considerados pertença do Estado, nada tendo valido a reclamação enviada ao Governo, alegando que de forma alguma os religiosos podiam ser considerados proprietários dos bens, que só em nome de Sua Ex.cia Ver.ma, o Bispo da diocese, administrava”.
Tendo os jesuítas saído de Timor, os funcionários do Estado foram ao Colégio masculino e retiraram as mobílias e materiais de construção ali existentes, deixando aos padres seculares a casa para nela habitarem e dar aulas aos alunos.
O comandante militar tomou posse do colégio das Madres. Sobre o abandono a que foi devotado este edifício escrevia o padre João Lopes: “Para ali esteve, durante anos consecutivos, servindo de valhacouto a vagabundos e abrigo de animais em dias e noites de chuva. Causava pena e fazia dó, era mesmo a vergonha o estado em que estava, quando em 1910 o mesmo comandante arranjou autorização para lhe vibrar o golpe de misericórdia, mandando-a demolir para não sei bem que fins…” E continua o padre João Lopes: “A substituir todos estes obreiros ficámos apenas dois missionários – um com a superintendência da missão e outro encarregado dos alunos na qualidade de professor e prefeito. A agravar esta desproporção de meios, temos a contar a impressão moral – o medo e desconfiança, que no ânimo dos indígenas lançaram a saída dos religiosos e esbulhamento dos bens que a missão possuía”.
Em Outubro de 1911, visitava Timor o padre José da Costa Nunes, enviado pelo Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro. No seu relatório de 23 de Outubro de 1911, escrevia: “Só quem conhece bem Soibada pode avaliar suficientemente a falta de enorme que as Madres Canossianas ali fazem. Tanto o Collegio de alunos, onde ainda estão interno 28, como a egreja – que por sinal ameaça ruína – e o novo e magnífico edifício, já quase concluído, destinado às religiosas, foram arrolados pelo governo e já entraram na posse do Estado, visto serem considerados como propriedade dos jesuítas, e neste caso não se admitir reclamação, nos termos do art.º 4.º do Decreto de 31 de Dezembro de 1910”.
A primeira consequência da saída dos padres e irmãos jesuítas reflectiu-se na diminuição do pessoal missionário na Missão Central do Sul ou Contra-Costa, obrigando a um novo reajustamento do “xadrez missionário”. As actividades escolares, que iam de vento em popa, ficaram estagnadas. A falta dos jesuítas em Soibada causou mal-estar em todos. O padre João Lopes exprime-se assim: “(…) [Foi] quando a missão iniciava um período de grande actividade e começava a expandir e intensificar mais e mais a sua acção tão prometedora de abundantes fructos, que se viu abruptamente privada de tão prestimosos obreiros. Foi uma grande perda para a civilização portuguesa e educação religiosa a saída dos religiosos desta missão. Com a saída dos padres jesuítas e das religiosas canossianas, dispersaram os alunos dos dois colégios e começou para esta missão um período de contradições e dificuldade”. O prejuízo maior foi o que aconteceu no Colégio da Imaculada Conceição, onde estavam as religiosas canossianas. No ano da expulsão, estavam internadas no Colégio 62 raparigas. As alunas que tinham famílias tiveram de regressar às suas casas. E as que não tinham, “foram pela missão distribuídas pelas famílias mais morigeradas de Soibada, ficando o seu sustento e vestuário a cargo da missão”.
Balanço
A presença dos jesuítas na Missão de Soibada não foi longa: apenas dez anos. Mas o apostolado aí desenvolvido criou raízes profundas na vida das populações de Soibada, Barique, Lacluta e Viqueque. Pela acção dos jesuítas, os timorenses tiveram acesso ao conhecimento religioso, cultural e social. Os missionários eram estimados pelo povo em geral e, em especial, pelos alunos do Colégio Nun’Álvares. Com a retirada dos padres, criou-se um vácuo no Vicariato Sul. Os sacerdotes seculares que já eram poucos tiveram de se reorganizar, deixando alguns centros missionários para atender a Missão de Soibada e a Escola e o Internato. Os jesuítas regressaram a Timor em 1958, quarenta e oito anos depois da expulsão. Se hoje não estão na Missão de Soibada, a sua acção faz-se sentir em Dili, com o trabalho desenvolvido no Seminário, no Colégio de São José e na casa de retiros em Dare e na capelania dos hospitais e das prisões.
A expulsão dos padres e irmãos jesuítas e das irmãs canossianas em 1910, criou descontentamento na sociedade timorense, especialmente nos círculos dos régulos indígenas, e contribuiu para que alguns deles se revoltassem contra os portugueses. A célebre revolta de Manufahi de 1911 foi uma das consequências da mudança do regime monárquico para o regime republicano.
