Exemplo operário do século XIX

Questões Sociais 1. O movimento operário do século XIX, visto à distância, caracterizou-se pelas lutas a favor da liberdade e da emancipação. Aliado a outras forças, lutou pela emancipação libertadora, face ao “antigo regime” proveniente da Idade Média. Contribuiu decisivamente para o surgimento das liberdades e direitos característicos dos nossos dias (mau grado as opressões que ainda subsistem por toda a parte).

2. O movimento operário, tal como outras forças, cometeu erros e injustiças contra as instituições do passado; não soube “separar o trigo do joio” no conjunto de instituições e em cada uma delas. No entanto, elas acabaram por subsistir, e o movimento operário assumiu valores ancestrais, designadamente o sentido de responsabilidade.

Não se limitou à contestação; pelo contrário, ele próprio criou vias de solução. Através do mutualismo, instituiu a ajuda mútua para as situações graves, tais como as de doença, acidente e morte. Através do cooperativismo, criou empresas de produção, consumo e outras. Através do associativismo popular, esteve na origem de colectividades de cultura e recreio e de iniciativas semelhantes.

3. O sentido de responsabilidade inseriu o movimento operário numa tradição axiológica ancestral, mesmo sem a reconhecer. E a luta a favor da liberdade colocou-o na dianteira da transformação do mundo em “terra habitável”, com humanismo e dignidade.

Aconteceu, porém, que, entretanto, o movimento se modificou, por motivos de ordem intrínseca e extrínseca. Não desenvolveu as tradições mutualista e cooperativa. Transferindo cada vez mais responsabilidades para o Estado, passou a contestá-lo, sistematicamente, como aliado aos “inimigos de classe”. Contestou-o não só pelas actuações negativas (que são muitas), mas também por não garantir tudo o que é necessário à vida humana; isto é, por não ser deus (providência) ou, simplesmente, por existir – existir como obstáculo à realização da plenitude utópica.

Será que a gravíssima crise actual suscitará, nos trabalhadores e nas suas organizações, a reactivação, actualização e desenvolvimento da síntese “liberdade-responsabilidade” praticada pelos seus antepassados? Sem prejuízo, obviamente, das responsabilidades do Estado e de outras entidades…