Em muitos ouvidos, zumbe, ainda, a letra de uma canção de um célebre grupo musical que fez escola em muitos meios educativos: «We don’t need – no – education!» (Não precisamos – oh, não – de educação!). Este foi, durante décadas, em Portugal, um mote que pareceu servir as condutas políticas, no âmbito da educação, e as decisões e posturas, no próprio contexto de sala de aula. Por «educação» entendia-se, aqui, «qualquer tipo de orientação vinda de fora». A verdade está dentro de nós. Não há senão que buscá-la e fazê-la brilhar.
Como dizia, recentemente, um articulista de um dos jornais de leitura nacional, é sintomático desta atitude que, na proposta de novo estatuto da carreira docente, não conste uma única vez a referência à palavra «ensinar». O professor, neste quadro, tem apenas um mero papel de suscitador de aprendizagem, um exclusivo facilitador do aprender, que poderá, em última instância, redundar num passivo papel, privado de possibilidade de propor formulações verdadeiras e denunciar proposições falsas, pois toda a verdade está entregue ao aluno e reduzida à condição de opinião.
Ainda que exagerado nos seus traços, este diagnóstico pode tocar num dos pontos cruciais do sistema educativo português. Contudo, importa deixar clara uma nota que damos como pressuposta de todas as nossas considerações: o sistema educativo é o espelho de toda a cultura da sociedade de que ele é parte integrante. Quando, já num outro momento, discutíamos o problema da autoridade, referíamos que esta não é o mero exercício de poder (pode ter-se poder e estar destituído de autoridade, se os outros no-la retirarem!), mas sim o resultado de toda uma conjugação de factores de autorização, de promoção do reconhecimento de que o que dizemos é credível. E isto só é possível porque toda a sociedade se envolve. Um professor, neste contexto, não está, de modo nenhum, só. A sua autoridade depende do papel de «autorização» que a própria família desempenha. Quando a família «desautoriza» o professor, este perde a autoridade sobre os educandos, restando-lhe exercer poder.
Ora, o que se tem processado, em relação ao sistema educativo português, é uma progressiva desautorização dos intervenientes, restando posições de força e de poder. A família está desautorizada; os educadores são desautorizados; a própria imagem do esforço e do trabalho é denegrida por intenções algo anárquicas, interessadas em dividir para reinar.
O modelo que defendo propõe a legitimação dos que exercem os papéis, exige que estes sejam desempenhados em respeito para com a sua essência: se os pais não forem pais, mas apenas bons amigos dos filhos, quem será pai e mãe? Se os professores não forem mais do que elementos passivos, equiparados ao papel de um computador que faz o que o seu utilizador permite, quem fará progredir o saber científico, ético, lógico dos alunos? Por fim, se se perder, em definitivo, a consciência de que as noções de verdade e de erro, de bem e de mal, continuam a ter vigência e a ser insubstituíveis para um crescimento humano, afinal, o que será educar?
Todas as questões (umas mais relevantes, outras de mera diversão) que têm vindo à tona da água dos regatos mediáticos, a propósito da discussão sobre o estatuto da carreira docente e outros temas afins, deverão ser, no nosso entender, inter-pretadas à luz destas interpelações, que aqui deixamos. Para onde se quer ir? Que intenções assistem à mudança? Que lugar deverá ter o esforço e a intervenção de cada um (aluno, professor, família, comunidade educativa)?
E, por fim, uma constatação: se o professor for reduzido ao papel de mero facilitador, sumindo, cada vez mais, o seu efectivo papel activo em todo o processo, com que legitimidade poderá pedir-se-lhe conta do sucesso dos alunos? Este é um dos sofismas em que têm caído muitas das discussões sobre estas matérias.
