Questões Sociais 1. Na fase pré-eleitoral em que nos encontramos, impõe-se não descurar um problema básico da vida económica e social. Respeita ele à luta entre explorados e exploradores; luta que sempre existiu e foi teorizada, especialmente, no pensamento de K. Marx e F. Engels.
Como explorados consideram-se os trabalhadores por conta de outrem (originariamente, os proletários) e o povo pobre em geral. Como exploradores consideram-se os capitalistas (ou, mais precisamente, os detentores de dinheiro e de outros meios de produção).
2. A leitura da realidade com base na “exploração do homem pelo homem” tem esquecido o fenómeno da auto-exploração, que o próprio Marx não deixou de abordar num documento bastante desconhecido: “Capítulo Inédito d’o Capital — Resultados do Processo de Produção Imediata” (edição, em português, de Publicações Escorpião, Porto, 1975). Em termos compatíveis com o pensamento marxista (mas não redutíveis a ele), dir-se-á que existe auto-exploração, especialmente, na economia de subsistência, na familiar bem como na micro e na pequena empresa. Em todos estes tipos de unidades económicas, acontece não raro que: o empresário, que é um trabalhador por conta própria, também realiza trabalho de execução; a sua remuneração chega a ser inferior à média dos salários no país; e muitos destes trabalhadores nunca chegam a alcançar o patamar dos empresários propriamente ditos.
Na linha do pensamento e da prática marxistas, as forças políticas de esquerda, de centro e de direita, têm ignorado e menosprezado sistematicamente estas unidades económicas. Será que agora, em ordem ao próximo acto eleitoral, as assumirão como realidade económica e social básica, à qual pertence o maior número de empresas do país, reconhecidas ou não como tais?
3. A abordagem da economia e da sociedade com base na exploração esquece ainda as realidades que se situam para lá desta. Entre explorados e exploradores, também existem relações de co-responsabilidade. Na medida em que estas se desenvolvam sadiamente, a exploração poderá atenuar-se e até ser eliminada.
Na auto-exploração está latente, quase sempre, o sentido de responsabilidade. E, por via da regra, este é tão forte que até se ultrapassa a auto-exploração.
Pode afirmar-se que a abordagem da economia e da sociedade com base, exclusivamente, em explorados e exploradores constitui, ela própria, um factor de exploração, na medida em que é redutora e fecha horizontes de desenvolvimento. Não fomenta a co-responsabilidade e não motiva para a responsabilidade e iniciativa pessoais. Pior do que isso: serve de pretexto para não se reconhecer nem apoiar o esforço de criação e cooperação na esfera económico-social.
