Falemos de heróis

Eduar… hoje 1. Nas obras dos autores clássicos, ou nas publicações mais recentes, na literatura oral, nos jogos de computador, na banda desenhada, no teatro ou no cinema, o público (leitor, ouvinte, espectador ou jogador) coloca-se do lado da personagem que tem objectivos altruístas. Normalmente, para fazer os outros felizes (e para alcançar a sua própria felicidade), o protagonista sai do espaço onde vive, ou porque este lhe é adverso, ou porque lhe é pedido por outrem, ou porque a felicidade se encontra fora dali. Normalmente, tem de superar obstáculos, para os quais detém poderes e alguns objectos mágicos. No final da história, o herói alcança o sucesso, contribui para a felicidade dos outros e encontra a recompensa. (No imaginário português, esta surge aliada à Ilha dos Amores de Camões.) Quanto mais difíceis forem os obstáculos a ultrapassar, mais terá o herói de se esforçar. E mais valorizado será o seu sucesso.

Num filme, livro, jogo, o final está garantido – a felicidade é alcançada, o herói é recompensado e o vilão é castigado. O que nos leva a querer ler o livro, ver o filme ou jogar? Apesar de sabermos o final, gostamos de perceber o que fez a personagem para lá chegar. Num jogo de computador, somos nós que contribuímos para o sucesso. Agora, imaginemos que a personagem do tal livro, jogo, filme, alcançava o sucesso sem qualquer esforço. Provavelmente, desistiríamos de ler, jogar, ver, pois nada nos suscitava interesse.

Imaginemos agora outra situação: a Rita, o André, o Nuno, a Vanda transitaram todos de ano. À Rita e ao André tudo correu sem problemas: os pais não se divorciaram; os irmãos não foram presos; o tio não anda fugido; os colegas não se meteram na droga; os amigos não se alcoolizam ao fim-de-semana; a turma é unida e não perturba o decurso normal das aulas. Ao Nuno e à Vanda tudo correu dentro da normalidade: os pais continuam a agredir-se regularmente; os irmãos estão desempregados e não querem mudar de estatuto; a tia ganha a vida de forma estranha; os colegas fumam haxixe; os amigos foram expulsos da escola; a turma é unida, porém as aulas são constantemente interrompidas por quem não quer estar ali, mas não quer sair da escola (porque gosta da escola, só não gosta é de: estudar; ter aulas; trabalhos de casa e testes).

Quem teve sucesso? Todos. E com todos gostei igualmente de trabalhar. Gostei muito. Enfim, o resultado – o final feliz das histórias – é semelhante: todos transitaram de ano. Mas o ponto de partida e o caminho percorrido foram bem diferentes. Por isso, os meus heróis são o Nuno e a Vanda, porque o filme que protagonizaram foi bem mais dramático, os obstáculos que superaram foram bem mais difíceis. E o esforço bem superior ao da Rita e do André. Por isso, o sucesso nunca se pode medir só pelo número de transições, ou de positivas, ou de níveis elevados. Essa será a sequência mais pequena do filme, ou o capítulo que se escreve ou lê mais depressa.

2. Para o ano, quer-se “uma escola a tempo inteiro” (Ministra da Educação, telejornal da RTP1, 20h, 24 de Junho 2006). Será bom que os alunos estejam mais horas do que as que são obrigados a passar actualmente nas escolas? Sempre com as mesmas pessoas? E se os avós quiserem estar com os netos? E se os vizinhos puderem tomar conta das crianças? E as catequeses? E os ATL?! E…??? É urgente que o público se manifeste. Os jornais e as revistas têm secções abertas aos leitores.