Família de Nazaré: Santidade na normalidade da vida

À Luz da Palavra – Festa da Sagrada Família – Ano B Nestes dias, continuamos a desfrutar do Amor de Deus feito carne, feito vida humana, em Jesus. Ainda vivendo o Tempo do Natal, a liturgia convida-nos a voltar a nossa atenção para a família de Nazaré, na celebração da Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.

O Evangelho deste Domingo mostra-nos a Sagrada Família a viver as realidades quotidianas próprias do seu povo: vão ao Templo para cumprir o que se espera dos judeus, que vivem a Aliança com Deus, e voltam à Galileia, onde o Menino Jesus irá crescer na companhia e sob os cuidados dos seus pais. E, enquanto vivem o que é suposto viverem, Deus vai-se revelando no seio desta família. Quando a família de Nazaré foi ao Templo, muitos, provavelmente, não viram nada de especial naqueles pais que levavam o seu menino para ser apresentado ao Senhor. Alguns, porém, reconheceram que a salvação estava já ali presente: “Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, deixareis ir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação” (Lc 2, 29-30), proclama Simeão, tendo Jesus nos seus braços. Ao escutar estas palavras, Maria e José ficaram admirados “com o que d’Ele se dizia” (cf. Lc 2, 33). Como nos diz o próprio São Lucas, noutro excerto do Evangelho, esta admiração converteu-se em oração: “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração” e procurando descobrir a acção do Deus que salva quando vem ao encontro do seu povo e de todos os povos (cf. Lc 2, 15-20).

Assim, a família de Nazaré interpela-nos a descobrir que a santidade está em viver o quotidiano e a normalidade da vida com os ouvidos e o coração atentos às profecias – como os de Simeão e Ana, no Evangelho –, às promessas de Deus, à Sua Palavra. Este é o caminho para que o Menino cresça em nós e nas nossas famílias, para que a vida de Deus se desenvolva, torne-se robusta e estejamos cheios da Sua sabedoria (cf. Lc 2, 40).

Neste Ano Paulino deixemo-nos desafiar, de maneira especial, pelas palavras de São Paulo na segunda leitura, em que nos apresenta a maneira de viver as nossas relações. Ele fala-nos do que deve nortear todas as comunidades cristãs, entre as quais está a família, como “pequena Igreja” ou “Igreja doméstica”. “Revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência” (Col 3, 12): revestir-se significa ter esses sentimentos como vestuário, ou seja, como aquilo que visivelmente caracteriza quem somos e o que consideramos importante nas relações. “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente” (Col 3, 13): nas nossas famílias, sejamos suporte uns para os outros e vivamos o desafio do perdão, que tudo transforma e que recria o amor. “Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição” (Col 3, 14): sobretudo, seja a caridade – o amor segundo a medida de Deus – o que nos vincula e une em família, para que ela seja espaço de crescimento humano, ambiente em que se gera a vida de Deus como salvação que quer alcançar a todos. E que seja a Palavra do Senhor a fonte onde vamos procurar o que ofereçamos àqueles com quem partilhamos o lar: “Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria” (Col 3, 16).

Finalmente, a primeira leitura recorda-nos a importância de valorizar as nossas raízes, de reconhecer o que recebemos daqueles que nos trouxeram à vida e que zelaram por ela, como Maria e José o fizeram pelo Menino Jesus. Que neste dia saibamos agradecer a Deus por aqueles que nos proporcionaram um ambiente familiar e o aconchego do amor e do carinho! E que, seguindo o exemplo da Sagrada Família, nos comprometamos a sermos também construtores e geradores de espaços familiares!

Leituras: Sir 3, 3-7.14-17a; Salmo 127 (128), 1-5; Col 3, 12-21; Lc 2, 22-40

Priscila Cirino

Fraternidade Missionária Verbum Dei