Família e amigos, riqueza de três gerações

Uma pedrada por semana Era uma dezena de casais, já jubilados de cinquenta anos de casamento, com filhos para além de dezenas, netos sem número e cinco bisnetos já contados. Um encontro convívio, num monte alentejano, que foi sempre modelar nas relações pessoais dos que aí viviam e trabalhavam, bem como nos compromissos sociais assumidos. Mesmo assim, por ali passou também, cega e irresponsável, a sanha revolucionária que ocupou e destruiu. Uma vez recuperado, depois de dores e injustiças que deixaram marcas, é agora uma empresa familiar com a lavoura possível, uma escola de equitação de renome, uma criação de cães de raça, um espaço de acolhimento a caçadores, uma unidade de turismo rural. Não o visitava há anos, mas tudo aquilo me falava.

Éramos mais de setenta e os ausentes estavam presentes. A história de cada casal cruza-se com a dos outros e também a minha com a deles depois que nos conhecemos e acompanhamos há 50 anos. Na de uns mais que na de outros, mas todos fomos, de vários modos, companheiros fiéis e amigos verdadeiros de uma caminhada já longa.

Por este grupo alargado já passou a morte, tocando velhos e novos. Já por ali pairaram e pousaram algumas das mazelas do tempo. Já o mundo novo e livre dos pensares e dos saberes deu espaço ao respeito pelo pluralismo legítimo e pelo acolhimento caloroso e amigo. Nada destruiu os valores, sempre ricos e profundos, da família e dos amigos, partilhados nas alegrias e nas dores, nos projectos e nos sonhos, na presença e na ausência.

Houve Missa na capela do Monte. A Eucaristia convoca, reconcilia, alimenta, compromete, torna mais presentes os ausentes, permite acolher, com verdade, o que de Deus é dado a todos. É força para os praticantes e despertador para os descuidados.

Foi bela a evocação dos presentes e dos presentes ausentes. Vi lágrimas incontidas, testemunhei graças inesperadas, senti, como mensagem a guardar, a profundidade dos sorrisos, o calor dos abraços, o apelo dos olhares.

Família e amigos! Dois pilares indispensáveis na vida de cada um de nós. Dois valores a defender sempre. Duas riquezas a transmitir, como a melhor parte de um património que fica, mesmo quando o partir é inevitável.

Naquela tarde de Domingo, ao regressar, deixei, mais uma vez o Alentejo com o rico sabor da saudade e da gratidão, pelos amigos que, de há 50 anos, fazem parte da minha vida.

António Marcelino