Fernão de Oliveira, couto-mosteirense notável

Couto do Mosteiro ficou a conhecer um filho da terra até há pouco ignorado
Couto do Mosteiro ficou a conhecer um filho da terra até há pouco ignorado

Em pleno séc. XVI, o aveirense Fernão de Oliveira teve vida de aventureiro e deixou obras ímpares. A sua biografia, por Mons. João Gaspar, foi apresentada na terra natal, Couto do Mosteiro.

 

A Igreja de Couto do Mosteiro, a poucos quilómetros de Santa Comba Dão, encheu para a apresentação do livro “Fernão de Oliveira, Humanista Notável”, na tarde de 9 de outubro. A justificação para a apresentação em terras de Santa Comba Dão do livro sobre um humanista do séc. XVI tido como aveirense está em ter nascido no lugar da Gestosa e ter sido batizado naquela igreja paroquial. Afirmou monsenhor João Gaspar: “Para mim é um ponto assente que Fernão de Oliveira foi gerado em Aveiro, considerando-se também aveirense; mas nasceu aqui, na vossa terra, no Couto do Mosteiro, em cuja igreja matriz foi batizado. São palavras dele, que lemos na introdução do livro inédito “Ars Nautica”, cujo manuscrito se encontra arquivado na Universidade de Leidn, na Holanda: «Aveiro é a terra onde me geraram os pais; […] mas o recém-nascido soltou os primeiros vagidos na Gestosa. A igreja matriz de [St.ª] Columba deu-lhe o batismo da fé»”.
Monsenhor João Gaspar afirmou que o seu interesse por Fernão de Oliveira (1507-1581), “uma das mentes mais brilhantes, alguém “invulgar e genial, irrequieto e insubmisso”, prende-se naturalmente com vontade de dar a conhecer factos da história multissecular de Aveiro e das pessoas “que a tiveram por berço ou como sua”.
Mas por que motivo tendo Fernão de Oliveira origens em Aveiro, foi nascer a Couto do Mosteiro? Monsenhor João Gaspar explicou à assembleia numerosa: “Há quem afirme que o pai, Heitor de Oliveira, era um judeu forçadamente convertido à fé católica em virtude do decreto de el-rei D. Manuel I, de 1496, sendo por isso «cristão-novo». Apesar de tudo, não se sentindo bem a viver em Aveiro, mesmo no meio dos seus familiares e patrícios, resolvera afastar-se para longe, com o fim de aí levar uma vida tranquila”.

 

Vida de aventuras
Autor da primeira gramática de Português, de um livro sobre construção naval de e outro sobre a guerra no mar, além de rescrever um relato sobre a viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães e de começar a elaborar uma história de Portugal, Fernão de Oliveira foi frade dominicano, deixou o convento e continuou padre, viajou pela Europa e foi perseguido pela Inquisição. Na sua vida não faltaram peripécias e enredos para um filme de ação. Por isso mesmo, o presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, Leonel Gouveia, presente na sessão, congratulou-se pelo resgate desta figura histórica e pondera associá-la a outras da região num projeto de oferta turístico-cultural. Como disse ao nosso jornal, num concelho pobre em recursos – apesar de se situar no interior, “nem montanhas tem para eólicas” –, a maior riqueza está na história e na cultura. Um produto de turismo intermunicipal à volta do Estado Novo, com referências a Aristides de Sousa Mendes (cônsul que salvou judeus contra as ordens de Salazar, Carregal do Sal), Branquinho da Fonseca (escritor oposicionista da ditadura, Mortágua), Salazar (presidente do Conselho de Ministros da ditadura, Santa Comba Dão) e da Família Larcerda (Museu do Caramulo, Tondela), não foi aprovado pelas instâncias competentes. O projeto talvez venha a ser reelaborado incluindo Fernão de Oliveira e outras figuras.
Na apresentação do livro, além do autor, estiveram o presidente da Câmara, como foi referido, o professor João Costa, que apresentou o livro, o presidente de Junta de Freguesia e D. Ilídio Leandro, bispo de Viseu. D. António Moiteiro queria estar presente e presidiu à Eucaristia em Santa Comba Dão, mas regressou mais cedo a Aveiro devido ao funeral do P.e Jeremias Vechina.
A sessão de apresentação foi organizada pelo P.e Carlos Martins Casal, pároco Santa Comba e de Couto do Mosteiro.

Jorge Pires Ferreira