A riqueza do cristão na sua vida diária e a da Igreja na resposta generosa à missão permanente que tem de realizar em todas as circunstâncias é a sua fé em Jesus Cristo vivo, o “Deus connosco” por causa de nós e para bem de todos nós.
Um Deus connosco, com rosto e história humana, é sempre um Deus acessível.
A fé é dom de Deus. Deus, porém, um Pai rico em misericórdia, cede sempre ante a humildade dos que lha pedem com confiança, dos que sentem a necessidade deste dom, porque nenhum outro até aí respondeu aos seus desejos e aspirações mais profundas.
Depois que Deus se fez Homem em Jesus Cristo, o homem estará sempre incompleto sem a consciência da sua dimensão divina, que o acompanha desde o nascimento e o credencia para bens maiores dos que, simplesmente humanos, serão sempre e só passageiros e efémeros.
O Natal é a referência universal ao gesto misterioso de um Pai que, por amor, nos deu o Seu próprio Filho e, por Ele, nos integrou numa nova família, onde já não conta a raça, a cor, a língua, o estatuto social ou a terra de nascença, mas somente esse amor que a todos une, não tem fronteiras terrestres que o diminuam ou tolham, porque as não tem o coração novo de um crente verdadeiro, capaz, pela sua fé em Cristo, de amar a todos, servir a todos, sofrer e se entregar por todos. Foi esse o caminho do seu Mestre.
Respeitar o Natal e viver cada dia em consonância com o mistério que Ele encerra, é dar sentido novo à humanidade e à mútua relação diária entre as pessoas, é multiplicar as formas efectivas de solidariedade fraterna, é saborear a alegria do amor. Desvirtuar o Natal é esvaziá-lo da sua realidade e razão de ser, é apoucar, sempre mais, a pessoa humana, homem ou mulher, que no Natal de Cristo foi para sempre dignificada, é favorecer a selva de um viver quotidiano, onde a verdade, a justiça, a alegria e a paz se vão tornando impossíveis, por serem abafadas pelo egoísmo, pelo consumismo sem regras, pela indiferença para com os outros, pela rejeição de amar e de sentir-se amado.
Os lampejos de amor solidário no tempo de Natal são a expressão passageira de uma mensagem para todos os dias. Não há sempre gente a dizer por aí que Natal é todos os dias ou quando cada um quiser? Para o discípulo de Cristo de facto assim é. Por isso, a sua entrega aos outros é esse o espírito do Natal, não é ocasional ou fruto de entusiasmo de última hora, mas projecto permanente, vivido em disponibilidade e generosidade, que pode levar até às últimas consequências de um amor verdadeiro.
Agora, também entre nós, abundam os profetas do anti-Natal, que o são do imediatismo, da liberdade sem peias, do nivelar dos sentimentos pelas emoções pessoais e momentâneas, do apagar dos compromissos assumidos pela irresponsabilidade, da insensibilidade a quem sofre… O resultado é destruição da família, espaço natalício por excelência, que já não sabe com quem festejar o Natal ou foge de si própria para mergulhar na massificação anónima, ou divide os filhos como se fossem brinquedos ou coisas. É a quebra dos laços humanos que, irreversivelmente, nos unem uns aos outros.
Natal é família, porque assim foi o Natal de Cristo. Família cimentada no amor de todas as horas, como a de Nazaré. É força, como nenhuma outra, para aceitar o desconforto de uma gruta inóspita, enfrentar poderes humanos que juram morte, voltar à terra das más recordações, recolher-se no silêncio discreto de uma pequena cidade e aguardar aí a hora da grande realização. Uma história que se repete cada dia em tantas famílias, que persistem no propósito de o ser, quando o amor é lei que as orienta, a fé, luz que as ilumina e aquece, o apreço mútuo, fermento diário de doação, respeito e perdão.
O Natal de Cristo, lição máxima da encarnação do sobrenatural na vida do dia a dia, em todas as suas dimensões, é porta, sempre aberto e disponível, para o acesso ao filão de um tesouro inesgotável, o do amor. Uma fé esclarecida, bem sabe que assim é.
