Fim do poder do medo e da morte

À Luz da Palavra – Domingo da Ressurreição A liturgia deste domingo celebra a ressurreição de Jesus. Assegura-nos que a vida em plenitude e para sempre é o fruto de uma existência feita dom e serviço a favor dos outros. Cristo está vivo, porque se entregou por amor, até ao dom total da sua vida. Aleluia!

A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de Cristo, que “passou pelo mundo fazendo o bem” e, por amor, se entregou até à morte. Por isso, Deus o ressuscitou e disso testemunham os seus discípulos e discípulas. Sempre que alguém, como Jesus, se dá aos outros e manifesta, em gestos concretos, a sua entrega, está a construir a vida nova e plena. A ressurreição de Jesus significa, também, que o medo, a morte, o sofrimento, deixam de ter poder sobre a pessoa que ama, e que partilha a sua vida. Tem a vida plena assegurada e pode, assim, enfrentar o mundo com a serenidade que lhe vem da fé. Estou consciente disto, ou deixo-me dominar pelo medo, sempre que tenho de agir para com-bater aquilo que rouba a vida e a dignidade, a mim e a cada um dos meus irmãos e irmãs?

O evangelho coloca-nos diante de duas atitudes face à ressurreição de Jesus: a do discípulo obstinado, que se recusa a aceitá-la porque, na sua lógica, o amor total e a doação da vida não podem ser geradores de vida nova; e a do discípulo ideal, que ama Jesus e que, por isso, entende o caminho e a proposta que Ele lhe faz. A primeira atitude é encarnada por Pedro que continua a não sintonizar com Jesus e com a sua lógica. Ele é o protótipo do discípulo que tem dificuldade em perceber Jesus e os seus valores, pois está habituado a funcionar de acordo com outros valores, os deste mundo. A segunda atitude é protagonizada por João, o discípulo que se identifica com Jesus e com os seus valores, que interiorizou e absorveu a lógica da entrega incondicional, do dom da vida, do amor total. Este discípulo convida-nos à identificarmo-nos com Jesus, a escutá-lo, atenta e comprometidamente. Propõe-nos uma renúncia persistente ao egoísmo e a outras formas de prepotência, e a realizar gestos que sejam sinais do amor, da bondade, da misericórdia e da ternura de Deus. Que tipo de discípulo sou eu?

A segunda leitura convida os cristãos e cristãs, já revestidos de Cristo pelo baptismo, a continuarem a sua caminhada de vida nova, até à transformação plena. O baptismo introduz-nos na dinâmica de comunhão com Cristo ressuscitado. Cristo passa a ser o centro e a referência fundamental à volta da qual se constrói toda a nossa vida. Despojados do pecado, tornamo-nos, verdadeiramente, pessoas que “aspiram às coisas do alto”, isto é, que, embora vivendo na terra e desfrutando das realidades deste mundo, têm como meta os valores do Reino de Deus. Paulo, a partir do exemplo de Cristo, afiança-nos que esse caminho de despojamento do “homem velho” não é um caminho de derrota, mas de glória, no qual se manifesta a realidade da vida eterna, da vida verdadeira. Isto não significa que sejamos pessoas alienadas, demitindo-nos do compromisso com o mundo e com os irmãos e irmãs, mas exige que não façamos dos valores do mundo a nossa prioridade e a referência última. A minha vida tem sido uma caminhada coerente com esta dinâmica de vida nova que começou no dia em que fui baptizado? Esforço-me, realmente, por me despojar do “homem velho”, egoísta e escravo do pecado, e por me revestir do “homem novo”, que se identifica com Cristo e que vive no amor, no serviço, na doação aos irmãos e irmãs?

Domingo da Ressurreição: Act 10, 34a.37-43; Sl 118 (117); Cl 3, 1-4; Jo 20, 1-9

Deolinda Serralheiro