Sombras e esperanças!

Revisitar o Sínodo Diocesano Em tempo de Mistério Pascal, ou seja, de identificação de Jesus Cristo com a pessoa humana, para a elevar à comunhão com a vida divina, faz bem recordar alguns parágrafos da Mensagem da Assembleia Sinodal à Comunidade Aveirense. Sobretudo, para reflectir se fomos sinceros e se agimos de forma coerente.

“Igreja no Mundo, com a missão de o redimir, queremos manifestar a nossa preocupação face aos problemas sociais que afligem a nossa região; queremos afirmar a nossa solidariedade com todos os que os suportam mais duramente; queremos dizer o nosso compromisso de cooperarmos com todos, na transformação dessas realidades; queremos partilhar o nosso optimismo na possibilidade de um futuro melhor”.

Depois, afirma-se a participação na apreensão que todos vivem pela degradação e insegurança do mundo do trabalho, pelo descalabro moral, pelo materialismo sôfrego, pela ausência de valores, pelo oportunismo político, pelo desnorte educativo…

Mas fizemos nós esta kenose, esta descida das nossas presunções de puros e superiores, ao mundo dos marginais, dos sem voz, dos pobres dos pobres?… Que empatia poderemos ter com estes para quem a Mensagem tem que ser Boa Notícia, se não são assim tão visíveis os sinais de proximidade destes angustiados, de compromisso autêntico com os desvalidos?…

“Mas queremos também partilhar convosco a alegria de constatar que muitos – a quem prestamos homenagem – se empe-nham generosamente no serviço à Comunidade e no cuidado privilegiado dos mais vulneráveis; muitos gastam a sua vida na construção de novos horizontes sociais, económicos, políticos, educacionais, sempre em função e ao serviço da pessoa humana; muitos criam e recriam iniciativas que nos restauram a esperança. Se o nosso Mundo não está como Deus quer, também é certo que vemos germinar nele muitos sinais de esperança”.

Mistério Pascal é descer até as fragilidades mais profundas da pessoa, para se elevar com ela à plenitude da vida, que passa por patamares mínimos de dignidade, por crescente qualidade de vida, por totalidade e harmonia de desenvolvimento… até à estatura interior de Jesus Cristo! Nele e por Ele! Mas com o afinco e o desassombro de quem sabe em Quem acredita, fazendo-se tudo para todos… o que não cabe, muitas vezes, em esquemas de “vida arrumadinha”!

Comprometemo-nos, solenemente, com Jesus Cristo e com os nossos conterrâneos, a ser fermento do Reino que passa não pelas estruturas mas pelo coração e pelo espírito das pessoas. Não esperemos que tal aconteça sem vivermos sextas-feiras de paixão; nem desesperemos de que elas conduzirão a auroras de ressurreição!

Querubim Silva