Livro de Joana Abranches Portela reúne cartas enviadas durante os dois anos de missão em Moçambique Joana Abranches Portela nasceu em Lourenço Marques (actual Maputo, Moçambique), em 1975, mas veio para Portugal com ano e meio de idade. Cresceu em Vila Real e estudou Línguas e Literaturas Clássicas em Coimbra. É casada e tem um filho de 17 meses. Trabalha na Gostar Editora, de Eixo, e vive desde Dezembro de 2006 em Aveiro.
Em 2002, com o marido, partiu como voluntária para Moçambique. Durante dois anos viveu e trabalhou na Missão Fonte Boa. As cartas que de lá escreveu estão agora publicadas em livro.
Correio Vouga – Quando de Moçambique escrevia estas cartas, esperava que viessem a ser publicadas? Conte-nos a história deste livro.
Joana Abranches Portela – Não, eram apenas cartas que eu escrevia para as pessoas a quem, antes de partir, prometi que mandaria notícias. Nós lá, em Fonte Boa, nos primeiros meses, não tínhamos Internet. E mesmo o telefone raramente tinha rede e era preciso sair da missão, de carro, à procura de sinal…. Passávamos semanas sem conseguir comunicar para Portugal. Então, para poder contar o que estávamos a viver, eu escrevia cartas. Sempre gostei muito de escrever cartas. Acho que é a minha forma de chegar às pessoas. A particularidade destas cartas é que não eram individualizadas, escrevia o mesmo para toda a gente. Depois enviava por correio um exemplar para cinco ou seis pessoas, que se encarregavam de as fotocopiar e distribuir pelo respectivo grupo: pela família, pelos amigos de Coimbra, pelos antigos colegas de trabalho, pela minha CVX – Comunidades de Vida Cristã, etc. (Assim, era um maneira de poupar dinheiro em selos.) Com isto, as cartas muitas vezes chegavam também a outras pessoas, que eu nem conhecia, porque aqueles que as recebiam foram-nas partilhando com outros, e estes com outros ainda… O meu pai, por exemplo, mandava as minhas cartas para muitas pessoas do círculo dele, sobretudo para os amigos e colegas que conheciam África.
De vez em quando, sobretudo através das cartas que o meu pai nos enviava, eu ia recebendo o feedback de pessoas que as tinham lido. Muitas incentivavam-me a continuar a escrever e algumas diziam até que mereciam ser publicadas. Mas nunca liguei muito. Percebi que estas cartas iam circulando de mão em mão, muito para além do meu círculo de conhecidos. Portanto, elas já eram públicas (a maior parte até foi publicada no jornal interno dos Leigos para o Desenvolvimento) e não havia interesse – pensava eu – em publicá-las em livro: aqueles a quem poderiam interessar já as tinham lido.
Mas insistiram na publicação…
Quando regressei a Portugal, várias pessoas voltaram a falar-me em publicar as cartas, mas – para ser honesta – eu não queria muito ter que me preocupar com isso: procurar editora, rever textos… Estava mais preocupada em arranjar emprego e em publicar a minha tese de mestrado (que, por ironia do destino, até hoje está na gaveta…). Mas um colega do meu pai, que fez trabalho de campo em Moçambique e que tinha lido as minhas cartas, perguntou-me se as podia mostrar ao editor da Profedições, que ele conhecia e onde já tinha publicado. E foi a partir daí que tudo se despoletou. De facto, este livro surge graças ao empenho do Fernando Bessa, que mostrou os originais ao editor e se envolveu muito na publicação do livro.
À medida que escrevia as cartas, obtinha ecos dos destinatários?
Sim, algumas pessoas respondiam, sobretudo os familiares e amigos mais próximos, escrevendo cartas também, daquelas enviadas pelos correios, com selo, que demoravam cerca de um mês a chegar… (e que tinham um percurso longo: da caixa postal do Malawi, na fronteira, eram levadas por um paroquiano e entregues aos padres de Lifidzi, que depois as entregavam aos padres da Vila, que por sua vez as entregavam na Missão – um percurso com cerca de 80 km). Também recebi cartas de pessoas de quem não estava mesmo à espera, mas que se tinham sentido tocadas pelo que escrevi e respondiam. Mas a maior parte dos ecos vieram até daqueles que não eram os destinatários das cartas, mas que pela mão de alguém as leram. O meu pai mandava-me, por carta, os e-mails com o feedback dessas pessoas.
Gostava de conhecer os ecos que obtinha?
É claro que sim, gostava de saber que havia pessoas que não me conheciam mas que gostavam de ler as minhas cartas… Sentia, muitas vezes, que nisto tudo havia a mão de Deus…
As suas cartas estão recheadas de cor e histórias. Dão-nos a conhecer o seu trabalho na Missão de Fonte Boa, mas também as pessoas da missão, as viagens que fazia ao fim de semana, as dificuldades do dia-a-dia no interior de um país africano… Qual o episódio que mais a impressionou (ou sensibilizou)?
É muito difícil eleger um episódio… O que mais me impressionou foram as pessoas com o seu quotidiano dificílimo. Impressionou-me muito ver as crianças subnutridas, várias delas órfãs de sida, que iam ao centro de nutrição da Missão. Impressionou-me muitíssimo a carga (física e não só) que recai sobre as mulheres moçambicanas: carregam toneladas à cabeça, filhos às costas e na barriga, e sobre os ombros ainda o peso da sobrevivência diária da família, próxima e alargada… Impressionou-me muito a generosidade das famílias pobres, que nos davam de presente (e não podíamos recusar!) a única galinha que tinham, quando as visitávamos nas aldeias…
Como foi parar a Moçambique?
Fui para Moçambique como voluntária dos Leigos para o Desenvolvimento, uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento, que tem missões em Moçambique, Angola, S. Tomé e Timor. Desde os meus tempos de faculdade que conhecia o trabalho dos Leigos para o Desenvolvimento, pois enquanto universitária fui animadora do CUMN, em Coimbra, um dos locais onde se realiza a formação dos voluntários que pretendem partir em missão.
Não somos nós que escolhemos o país para onde somos enviados, é a direcção da ONG. Calhou-nos, felizmente, Moçambique, que era o destino que, de facto, eu preferia, por ter nascido lá e por sentir que queria fazer alguma coisa pela minha terra.
Esteve dois anos em Moçambique, com o seu marido, o Carlos. Tratou-se, portanto, de um projecto de casal este voluntariado?
Sim, foi desde o início um projecto a dois. A vontade de partir em missão, como voluntários, foi crescendo e amadurecendo durante os anos de namoro. O Carlos, que tinha iniciado a formação dois anos antes, interrompeu-a e esperou por mim para partir, pois eu tinha a tese de mestrado para terminar. Quando percebemos que queríamos partilhar a felicidade um do outro para o resto da vida, percebemos também que só fazia sentido vivermos esta experiência juntos, como casal. Casámos em Outubro de 2002 e partimos para Moçambique dois meses depois. No nosso primeiro ano de missão, a nossa comunidade éramos só nós os dois (normalmente as comunidades são de 4 pessoas), porque nesse ano apenas partiram 5 voluntários e todas as comunidades dos LD ficaram muito reduzidas. Penso que, apesar de tudo, foi bom termos tido a oportunidade de estarmos só os dois durante esse primeiro ano de casados. No segundo ano, já tivemos a companhia de mais dois voluntários.
Foi importante esta experiência, no início do casamento?
Foi, foi muito importante para percebermos melhor, numa realidade tão diferente da que estávamos habituados, os valores e os ideais que partilhamos, aquilo em que acreditamos. Foi fundamental, sobretudo, para percebermos o que queremos fazer da nossa vida, como queremos vivê-la, lá ou cá. Olhando para trás, penso que o facto de termos passado por esta experiência juntos contribui muito para falarmos a mesma linguagem, para partilharmos as mesmas preocupações em relação ao mundo, para estarmos em sintonia quanto ao nosso projecto de vida e à nossa missão como cristãos.
Foi na missão de Fonte Boa que em Novembro de 2006 foi assassinada uma voluntária dos LpD (Idalina Gomes). Alguma vez sentiu a sua vida em perigo?
Nunca senti qualquer tipo de insegurança em Fonte Boa. A ideia que eu ainda tenho de Fonte Boa é a de um lugar remoto e pacato. Ainda hoje me custa a acreditar que isso tenha acontecido lá. Ouvia-se falar de assaltos, por vezes violentos, mas era nas cidades, não no mato. Durante o dia, nós até deixávamos a chave de casa na porta, do lado de fora… É claro que tínhamos precauções durante a noite, mais por aquilo que se ouvia dizer de assaltos na Vila (a 15 km). Nunca senti a minha vida em perigo, enquanto estive em Moçambique. E medo, medo só senti uma vez, quando o nosso carro começou a patinar na lama perto de uma ribanceira…
Os dois anos em Fonte Boa mudaram a sua visão da vida?
Acho que sim. Fiquei muito mais sensível, por um lado, às enormes injustiças sociais, que se verificam a vários níveis: injustiças entre o Norte e o Sul, injustiças entre homens e mulheres, entre elites e povo, entre brancos e negros, etc., etc., etc. Tudo isto me revolta mais hoje do que antes, porque estas injustiças são estruturais, não são uma fatalidade. Mas, por outro lado, fiquei muito mais desperta para o muito bem que algumas pessoas fazem por esse mundo fora e que está escondido, não é notícia, não é apregoado. Há muita gente boa a fazer o bem, muita gente que se entrega verdadeiramente aos outros, muitas coisas boas a acontecerem para evitar que a miséria do mundo seja maior. Fiquei a admirar muito o trabalho que fazem os missionários a sério, aqueles que o são durante toda a vida, como as irmãs. Hoje tenho a certeza que Deus vê o sofrimento do mundo e está a actuar por intermédio dessas pessoas, que vão fazendo possíveis e impossíveis para aliviar a dor, a fome, as doenças dos homens. Pode parecer até um pouco contraditório, mas, depois de toda a pobreza e injustiça que vi, tenho hoje mais esperança, porque também vi quanto bem se faz e está oculto. Acredito mais hoje na capacidade do Homem, de cada um de nós, para fazer o bem.
