JOSÉ CARLOS
Diácono Permanente, Médido
Esta foi a frase que mais se repetiu, por aqueles e aquelas que presenciaram o término vital físico, em pleno Retiro, da companheira e amiga Rosa Estela, da Borralha, Águeda.
Com 86 anos de idade, mas de espírito muito jovem, decidiu, de sua livre vontade, juntar-se aos restantes doentes da Diocese, para participar no Retiro, em Fátima, que decorreu nos dias 6, 7, 8 e 9 do corrente mês de Março. Decidiu participar no Retiro e manifestou um desejo transmitindo-o aos seus familiares próximos: «Vou a Fátima para visitar o túmulo da Irmã Lúcia, a Basílica, reconciliar-me e depois o meu maior desejo era que Nossa Senhora me levasse».
No autocarro, durante a viagem, foi pedido, na oração comunitária que foi feita, que cada um ali presente procurasse libertar das suas mãos, da mente e do coração, tudo quanto estivesse a ocupar, inutilmente, espaços do nosso interior e que viesse a obstar a entrada da graça do Senhor nos nossos corações, à semelhança do que aconteceu com Maria, no dia em que ela recebeu no seu seio o Filho de Deus, Jesus, o Salvador de Todos: Ave-Maria, ó cheia de graça…» (Lc. 1, 28)
Todo o grupo se esforçou, no sentido de se preparar com as melhores condições espirituais, para garantir o maior aproveitamento do Retiro. E foi aqui, já em ambiente de oração, que a D. Rosa Estela expressou peremptoriamente o seu contentamento, por estar a fazer uma experiência que, para ela, como para a maioria dos elementos do grupo, vivia pela primeira vez.
Começou o Retiro na Terça-feira, dia 6, logo após o almoço. Entre momentos de formação, momentos de reflexão, meditação, oração, contemplação, reconciliação e Eucaristia, vieram também as visitas tão desejadas: túmulo da Irmã Lúcia, Basílica, Capelinha das Aparições e o vislumbramento de todo aquele espaço magnifico do Santuário, pela tranquilidade, serenidade e paz que proporciona a todos quantos ousam romper com o seu orgulho e vergonha e são capazes de pisar, silenciosamente, aquele solo sagrado, numa atitude de peregrino e de filho, muito amado, de Maria: «Mulher, eis o teu filho».
O sonho da D. Rosa Estela estava a ser realizado, nem queria acreditar. Cada dia que passava, o entusiasmo e a alegria iam aumentando e partilhava essa satisfação com as colegas do quarto. Na Quinta-feira, dia 8, já preparada para iniciar o terceiro dia de Retiro, subitamente, deixou-nos e foi para o lugar que sempre desejou: para junto do Pai. Lentamente a notícia foi chegando a cada um, ao ritmo e intensidade escolhido por Maria, sempre presente e providente. E, em pouco tempo, se formou um coro silencioso, que não se fazia ouvir, mas que era sentido e, mentalmente, se repetia a frase que a todos contagiou admiravelmente: «Foi uma graça Divina: Nossa Senhora fez-lhe a vontade».
Este acontecimento, embora alheio ao Retiro, começou a fazer parte dele. Todos os participantes revelavam alguma apreensão e tristeza pelo sucedido. Mas, por outro lado, todos se regozijavam pela graça recebida e dizia-se em uníssono, como me dizia uma senhora emocionada: «Graças a Deus, Nossa Senhora é mãe!»
Curioso foi o que aconteceu a partir deste acontecimento. Para o jovem Domingos Pereira, de vinte e cinco anos de idade, paraplégico há doze, totalmente dependente, sentado numa cadeira móvel, interrogava-o este facto incessantemente, inundado numa forte emoção: «Como é que Nossa Senhora permitiu “morrer” uma mãe, aos seus pés? Porquê?» Interpelava-nos ele. E não descansou enquanto não ouviu da própria filha da D. Rosa Estela, seu irmão e respectivos cônjugues, o que eles pensavam e sentiam naquele momento. A dúvida do Pereira, que exigia uma resposta entendível à dimensão da sua compreensão e aceitável à escala da sua fé, muito fragilizada, aparentemente, possibilitou a todos os presentes a soberana oportunidade de presenciar o testemunho dado pelos familiares, como o Pereira tinha pedido. Foi um momento extraordinário pela belíssima manifestação de fé que esta família deu ao jovem Pereira e a mim, confesso.
Confrontados com o jovem Pereira, enervado e revoltado por não compreender a razão, nem o valor e o sentido daquela morte, agarraram-se a ele, acariciaram-no afectuosa e fraternalmente e, numa atitude de total compaixão, disseram-lhe: «A nossa mãe foi sempre uma mulher de Igreja e de muita fé. Foi uma boa mãe, boa sogra e boa pessoa. Viveu sempre muito feliz. Agora a minha mãe está melhor ainda, porque foi para o Céu, para junto do Pai. Foi Nossa Senhora que lhe quis dar essa graça, fazendo-lhe a vontade». O Pereira, mesmo sem entender tudo, mas já um pouco mais calmo, exclamou: «Mas era mãe!».
Momentos antes deste testemunho ser dado, tinham-me incumbido de falar com o Pereira, para lhe dar essa explicação e ajudá-lo a compreender a morte para o tranquilizar. Comecei de imediato a pensar como deveria iniciar e que palavras utilizar. Ao mesmo tempo ia pedindo à Nossa Senhora para me ajudar nessa missão difícil. Pouco tempo depois chegaram os familiares e aconteceu, mais uma vez, aquilo que ninguém esperava: escutar um testemunho, que para o Pereira foi esclarecedor e calmante e para mim foi aquela ajuda que tinha pedido momentos antes à Nossa Senhora de Fátima. Sim, porque, para mim, foi mais do que uma simples ajuda, dado que fui substituído na missão de que me tinham incumbido e evangelizado. Obrigado, Mãe do Céu. Obrigado «Betinha» e seus familiares. Um bem-haja!
Na viagem de regresso a casa, imbuídos neste ambiente de tristeza, por um lado, e de contentamento espiritual, por outro, os 48 doentes expressavam o que sentiam do fundo dos seus corações:
«Graças a Deus, venho consolada»; «Foi muito bom, gostei de tudo. Foi pena aquilo que aconteceu, porque éramos amigas, mas era aquilo que ela mais queria e Nossa senhora ouviu-a”; “O retiro foi muito bom. Se para o ano puder voltar, gostava de repetir”; “É um pouco cansativo, nós quase não temos tempo para nós, mas foi maravilhoso”; “Não há muito espaço para o convívio entre o grupo, mas compreendo, por ser um encontro espiritual. Gostei muito e sinto-me mais leve”; “Trazia a minha cervical que mal podia mexer, devido à rigidez dos músculos, provocada pelos nervos. Estou diferente. Pareço outra”; “Vou cansada, mas feliz. Gostei de tudo”.
Foi unânime a opinião do grupo: estes encontros denominados Retiro de Doentes são uma maravilha, nos quais todos os enfermos deveriam participar, para viverem a experiência das suas doenças de outra maneira: encarar a doença como um processo de cura integral da pessoa humana e não como uma dádiva ou castigo de Deus.
Resta-me agradecer aos párocos, responsáveis paroquiais, visitadores de doentes, à equipa diocesana responsável, a todos quantos colabora-ram e contribuíram para este retiro. O mais reconhecido agradecimento e que Deus vos recompense.
