Fóruns Sociais e Económicos

Acabaram na Quinta-feira, dia 25 de Janeiro, e no Domingo, dia 28 de Janeiro, dois Fóruns: um Social, em Nairobi, no Quénia, o outro Económico, em Davos, na Suíça. Ambos com o epíteto “mundial”, mas nenhum deles o era de facto.

A Economia é a gestão dos recursos que há no mundo de modo inteligente: em respeito e sustentabilidade, estando a espécie humana inserida nesta teia! Parece-me que ao referir a Economia, referi ao mesmo tempo a questão “Social”. São confusas as noções porque tão próximas uma da outra. Ambos os fóruns, afinal, queriam resolver os mesmos problemas e questões de fundo, embora de pontos de vista diferentes.

Do lado Social, em Nairobi, falou-se da pobreza, do ambiente, da fome. Muito boa gente quer mesmo mudar o mundo e acredita que o podemos realmente fazer. No Fórum Económico, em Davos, muito líderes políticos e empresariais (e um que costuma lutar pelos que estão no hemisfério sul, o vocalista Bono) discutiram negócios, a guerra contra o terrorismo, alterações climáticas e tudo o que isso implica: sustentabilidade, ambiente, bem-estar da humanidade, pobreza, fome, equilíbrio financeiro.

De ambos os lados, estiveram os habituais políticos: os líderes na Suíça, enquanto outros, numa de emplastros, juntaram-se ao Quénia. Quer de esquerda, quer de direita, sempre que cheiram uma boa ideia lá se colam a ela em vez de criarem as suas. Fizeram com que Nairobi às vezes parecesse um comício e não um Fórum.

Sem ter em conta os antecedentes de cada um dos eventos, pergunto-me com ingenuidade: Porque estiveram estes dois fóruns tão afastados um do outro? Com os mesmos objectivos, as mesmas aspirações…

Se em Davos se discutiram mercados, negócios, economia e a gestão dos bens, deviam ter em conta os milhões de consumidores que podiam entrar na cadeia de trocas (justa ou injusta, não está em questão) que é a economia mundial. Se partilharmos o nosso a mais com Africa, eles um dia poderão ser nossos clientes e nós clientes deles. Não é isso que os empresários querem? Mais clientes? Mais mercado?

Porque não nos deixamos de proteccionismos comerciais que para nós significam não mais que 2% da nossa Economia (UE e EUA) mas que a muitos milhões de pessoas bloqueiam a entrada na escada do desenvolvimento, não permitindo escoamento dos seus produtos? Permitiamos-lhes assim a fuga definitiva da fome e da miséria, por sua própria mão e trabalho de produção…

Se em Nairobi se falou da fome, da miséria, do ambiente, da Paz… Não era do interesse de todos abrir mercados para troca de bens, que pudessem suprir estas necessidades tão básicas? Não era do interesse que houvesse justiça na distribuição e tolerância para com as diferenças?

A era das esmolas mal geridas, dos grãos simbólicos, das caminhadas pelo pão ou outras místicas entusiásticas (já só nas campanhas de referendos ao aborto é que ainda vemos isso de ambos os lados) acabou. É hora de trabalho, de compromisso, de método e objectivos! De donativos (diferente de esmola) que sejam bem geridos e para programas que vão ao encontro da desejada autonomia económica e social de todos e em todo o mundo. Chega de recolher tampinhas para uma pessoa poder ter uma cadeira de rodas! Não terá direito intrínseco a ela? Chega de lutar pelos pobrezinhos eternos. Temos de lutar é para que eles tenham as condições que nós temos, para serem de facto nossos irmãos e não nossos coitadinhos, porque, no fim de contas, se há ricos e se há pobres, somos nós seres humanos que erramos na gestão dos recursos que há no mundo e na sua equilibrada distribuição.

Não é Deus o culpado de morrerem tantas criancinhas de fome, como se ouve tanto dizer por aí. Não é a natureza, não é ninguém, para além do Homem e dos seus desentendimentos: Somos nós, enquanto espécie, que continuamos a lutar pelo mesmo, com motivações secundárias e por isso de costas voltadas, uns em Davos, outros em Nairobi.

Já todos sabemos o que é necessário fazer tecnicamente… Quando sairemos das reuniões para começar de facto a fazer as coisas?

Como disse Bono em Davos, «foram feitas promessas sérias. Os cheques foram assinados; (…) se essas promessas não forem cumpridas, seremos uma geração de cínicos». Como disse o bispo Nobel da Paz sul-africano Desmond Tutu em Nairobi: «A guerra contra o terror nunca será ganha enquanto houver no mundo condições que levem as pessoas ao desespero», como a pobreza desumanizadora, as doenças e a ignorância. «A lei fundamental do nosso Ser é que devemos uns aos outros. A única maneira de cumprir essa lei é a união entre todos».

Aproveito, inspirado nas palavras do sábio Tutu, uma sugestão de acção: Que tal um Fórum Económico-Social, esse sim definitiva e verdadeiramente mundial?