FRANCISCO um modelo de líder

Pistas para compreender o Papa que quer recentrar a Igreja na sua missão essencial e inspira o mundo. Texto de António Ramos Pereira

Quando, em 13 de março de 2013, apareceu à varada na qualidade de novo bispo de Roma, Francisco apresentava-se à cidade e ao mundo, com alguma da bonomia que se lhe conhece, é certo, mas visivelmente abalado. Como confirmaram relatos posteriores, o abalo e o provável nervosismo deviam-se menos à presença daquela moldura humana do que à compreensível convicção de ser demasiado pequeno para uma tarefa tão grande. Nesses primeiros dias, fazia lembrar a personagem de Nanni Moretti (“Habemus papam”, 2011), o cardeal que acaba Papa sem querer e que desconcerta o mundo sem saber bem porquê (afinal, está só a ser como sempre foi). Mas claro que a semelhança começa e acaba na ausência de ambição pessoal para liderar a maior e mais antiga instituição humana. Bergoglio, doravante Francisco, o líder acidental, era tudo menos um acidente.
Um perfeito desconhecido para a generalidade dos fiéis, corpo estranho no estranho ambiente político, porventura eclesial, do Vaticano, obrigado a uma missão que faria desesperar qualquer pessoa medianamente sensata, não só não desesperou, como se tornou, em menos tempo do que leva a dizer “nunc dimittis”, no mais popular e apreciado líder religioso do mundo.
O que explica este fenómeno? A pergunta, pelos vistos, é frequente: uma breve consulta do google, diz-nos que, só sobre a liderança franciscana, foram publicadas duas dezenas de livros nos últimos meses. O “fenómeno Francisco” (o seu sucesso, a sua obra) parece ser ultrapassado apenas pelo “meta-fenómeno Francisco” (as razões do seu sucesso); uma vicejante indústria de análises, paráfrases e apropriações mais ou menos conseguidas, de que saem produtos tão díspares como o típico manual de auto-ajuda e autênticos manuais de liderança à la Francisco (de destacar, os contributos de Chris Lowney e, entre nós, de Arménio Rego e Miguel Pina).

 

Francisco cai bem
E que nos dizem os hermeneutas? Que justificará tamanho entusiasmo, fervor e aplauso? Bem, começando pelo óbvio: Francisco tem bom aspeto. E não se trata só de ter fisicamente todos os atributos que, por algum motivo, associamos a uma pessoa bondosa; também não é só a questão de contrariar a expectativa que temos em relação a um líder religioso (austero ou distante). Mais do que isso, Francisco cai bem porque tem a imagem certa da forma certa, que é a que a tv captura; é telegénico como nenhum outro líder, e torna qualquer encontro com fiéis num encontro pessoal e íntimo com cada um dos fiéis. Pela graciosidade (a elegância do movimento) e pela graça (a elegância do sentimento), com que se mostra comovido, comove; beija de lágrimas nos olhos aquele homem terrivelmente desfigurado algures em Itália, e não é difícil imaginar que muitos mais, a muitos quilómetros de distância, também o terão ficado.
Em contextos mais formais, a segurança também é total, sem que haja quaisquer vestígios de poder. Não precisa. Para dar confiança basta-lhe o sentido de humor e autoironia e, claro, de uma enorme capacidade de empatia, de compaixão, própria de quem já se definiu em pobreza e vive para fora, para os outros, e por isso, como não é de si que cuida, teme menos.
Não se julgue, porém, que esta bondade equivale a mansidão ou inabilidade política. Pelo contrário, e é isso o que mais surpreende: como pode alguém ser tão afável e próximo ser tão implacável na gestão da casa? Dois estômagos bem resistentes não bastavam para lidar com o que se imagina que implicam a reforma progressiva da Cúria, a limpeza no Banco do Vaticano ou para se aguentar numa posição de radical moderação contra as pressões de ambos os lados. Mais do que bondade, método e alguma paciência, há sobretudo muita sensibilidade política, muita destreza tática, em que não se exclui mesmo alguma brutalidade. Ninguém esquece o discurso que fez na Cúria Romana no natal de 2014, em que diagnosticava as quinze patologias que afetavam a saúde do Vaticano, entre as quais se contavam o alzheimer espiritual, sentimento de imortalidade e – uma das mais curiosas – endeusamento dos líderes.
Outro fator nunca demasiado realçado é o “recentramento” da mensagem papal na mensagem cristã essencial: a caridade. Não que Bento XVI não o tentasse; mas não evitou que outras questões dominassem o discurso sobre a Igreja; daí o mérito tático (com alguma sorte) de Francisco. De uma assentada desvia-se o foco mediático de parte da doutrina que, por muito justa que seja, reforça uma imagem da Igreja que afasta quem está fora e intimida quem está dentro, e aponta-se para aquilo que sempre foi o mais importante. E até a forma como recoloca a questão no centro é, também ela, profundamente cristã: Francisco, ao seguir a máxima do exemplo – “se podes mostrar, não digas, mostra” –, põe-se na fila da frente, ao mesmo nível de quem se queira seguir.
Este recentrar na mensagem sobre amor, pobreza ou cuidado do lar comum (uma aparente novidade, quando a preocupação ecológica integra a doutrina desde sempre), contudo, fica-se a dever também a razões de circunstância, relativamente novo na sua dimensão, de ausência de discursos políticos integradores sobre esses temas – uma originalidade do presente século –, que alargou substancialmente o público disposto a ouvir com atenção mensagens como a da apologia de uma “economia do dom”, ao mesmo tempo que reforçou a autoridade do seu porta-voz.
Por fim, convém não esquecer a origem de Bergoglio, a sua formação jesuítica, que desenvolveu como que um modelo próprio de liderança. Moldada pelos textos fundadores, pela experiência histórica da Companhia (muito voltada para o ensino, a evangelização dos novos mundos, o esforço de ir às fronteiras) e pelas regras próprias, como o voto de obediência, a “liderança inaciana”, como é conhecida, distingue-se pela dedicação a conciliar quatro aspetos diferentes: auto-conhecimento, engenho, amor e heroísmo. Por outro lado, a vida em comunidade, o voto de obediência que pode, a qualquer momento, exigir de um jesuíta que largue tudo para ir para outro canto do mundo, têm muito enraizadas duas outras ideias: promover a liberdade – “aprender a viver com o desconforto” – e, na relação entre “irmãos”, muitos especialistas encontram um antecedente histórico daquilo que as “ciências empresariais” designam hoje por modelo de organização assente na “liderança horizontal” (isto é, na delegação de funções, no diálogo com os subordinados).
Todos estes fatores ajudam a compreender que se veja na ação do Papa caracterização suficiente para que se possa quase falar de um modelo de liderança. Um modelo tão singular que, como vemos, combina pragmatismo com empatia, abertura para a inclusão com severidade, o envolvimento na vida e realidade dos fiéis com o afastamento para oração e discernimento, uma prudência doutrinal aliada ao firme desejo de não deixar que a mensagem se perca por alheamento do mundo, e que visa tornar a ação não só mais eficaz, como mais justa.