“Fui evangelizada por aquelas crianças lindas”

O Correio do Vouga prossegue com a publicação de experiências recentes de voluntariado missionário Laura Vaz esteve em Moçambique um ano, até Fevereiro de 2010.

Participar numa missão foi um sonho que sempre desejei realizar. Pedi a várias pessoas, mas só os Carmelitas me ajudaram a concretizá-lo. Depois de um processo de avaliação do meu perfil e da formação da Fundação Evangelização e Culturas e do curso de Missiologia em Fátima, fui chamada. Aceitei de imediato e lá fui de malas e bagagens até Moçambique, com o conhecimento do meu pároco, P.e Manuel Rocha (paróquia da Vera Cruz), e do Sr. Bispo, D. António Francisco, que me abençoaram.

Fui evangelizar, mas também fui evangelizada por aquelas crianças lindas.

Pertenço à Congregação dos Carmelitas Descalços, que angaria padrinhos para aquelas crianças. Eu própria sou madrinha da Lulama, de 8 anos, para quem deposito 20 euros por mês na conta dos Carmelitas Descalços, gerindo eles esses dinheiros para a Missão. Caso queira apadrinhar uma dessas crianças, dirija-se ao Frei Silvino, na Igreja do Carmo, e ele lhe dirá como fazer [nota da redacção do CV: A Orbis, ligada ao Secretariado das Missões, tem um projecto idêntico].

A experiência decorreu no Orfanato da Missão de São Roque, Bela Vista, Matutuine, Maputo, com 50 crianças de ambos os sexos, até cerca dos 14 anos. Ajudava crianças da 4.ª, 5.ª e 6.ª classes nos trabalhos de casa, o que foi muito enriquecedor para mim. Ensinava Trabalhos Manuais e dava catequese aos sábados. Regava a machamba com as crianças, ponteava e cozia botões nas roupas das crianças. Enfim, trabalho não faltava. E boa disposição também não, pois aquelas crianças enterneciam-me demais. Aprendi a viver sem mordomias e sentia-se bem assim. Era uma felizarda!

Impressionou-me muito saber que algumas crianças tinham SIDA. Uma delas tinha acabado de entrar na escola e andava sempre, sempre doente. As Irmãs foram com ela fazer análises e era mesmo SIDA. Entre as crianças não havia descriminação. Eram ensinadas a não descriminar os seus amigos. Só se houvesse sangue à vista é que tinham que ter cuidado. Assisti também a um caso de uma mulher esfomeada, seminua, fugida de uma aldeia, que vivia de arrancar madioca com as mãos. Foi acolhida na missão e bem tratada.

Com esta experiência de voluntariado, deixei de dar importância a certas coisas. Durou um ano e foi dura em certos momentos. Mas encontrei força para continuar. O que é fácil não nos faz crescer como seres humanos.