O Correio do Vouga prossegue com a publicação de testemunhos de experiências recentes de voluntariado missionário Paulo Fontes esteve na Guiné-Bissau, em Agosto de 2010.
Estive em Safim, perto de Bissau (Guiné). Gostei muito de ver a força das pessoas, e a sua alegria em viver, a «sede» de mudarem a sua vida, o seu mundo, apesar da conjuntura sócio-económica que enfrentam. Gostei igualmente de ver a forma como a Igreja actua activamente na vida dessas pessoas e na sociedade em geral, como agente impulsionador e transformador, activo de mudança.
Em geral, o que mais impressiona é vermos os meios em que as pessoas vivem: algumas casas, alguns centros hospitalares, algumas ruas. Não faltam histórias pessoais de dificuldades, de não terem dinheiro ou meios para comer pelo menos uma refeição decente por dia.
Em Bissau, onde visitámos o hospital da cidade, na unidade de queimados, um jovem olhou para mim e vi nos seus olhos a mesma expressão que já todos tivemos: “Agora que estou no hospital, vão saber cuidar de mim, e tudo vai ficar bem”. Foi chocante os médicos dizerem-me que a maior parte, senão todos eles, viria a falecer por falta de cuidados de higiene e soluções de tratamento básico, como bactericidas, ligaduras e gaze. As ligaduras são muitas vezes reutilizadas entre doentes, depois de lavadas. Com a pouca limpeza das instalações, é habitual as feridas infectarem e, com a alimentação deficiente e as defesas baixas dos doentes, a morte é frequente. E aquele miúdo, que deveria ter não mais que 14 ou 15 anos, tinha tanta esperança…
Vivemos muito num mundo onde nos formatam a pensar que o importante é termos um bom emprego, um bom salário, aparecermos com as melhores (ou pelo menos mais caras) roupas, a termos a casa com maior aparato. Com as experiências que fiz (noutros anos estive no Brasil e em Angola), fui ensinado que o mais importante de tudo são as pessoas. No final, vamos lembrar-nos das pessoas a quem nos ligámos, com quem tentámos construir algo real, algum contributo para um mundo mais igual e melhor.
Duvido que daqui a 20 anos nos lembremos das camisas que temos hoje no guarda-roupa. Duvido que nos lembremos da refeição no restaurante de luxo que custou 50 euros. Mas nunca hei-de esquecer o miúdo que, no Brasil, corria para casa, assim que lhe demos o seu copo com a sua única refeição do dia. Perguntei-lhe onde ia. Disse-me que ia para casa para poder partilhar aquilo com os seus irmãos, que ainda “hoje” não tinham comido nada.
