Futebol: Paixão ou Religião?

1. Eduardo Galeano, no saboroso livro, “Futebol ao Sol e à Sombra”, refere que um dia perguntaram à teóloga alemã Dorothee Solle, “– Como a senhora explicaria a um menino o que é a felicidade? – Não explicaria – respondeu. – Daria uma bola para que jogasse”. É politicamente certo opinar que o futebol não é só assunto de homens. Claro está que esta citação inicial, vai muito além disso, é óbvio.

2. Recentemente, li um artigo do jornalista Salvador Nogueira, que argumentava: “Acho que o futebol é especialmente incrível, porque lembra a mecânica quântica (…) É minha opinião que o futebol, embora respeite totalmente as regras da física “clássica”, apresenta resultados em formato quântico. Num jogo de basquete ou vólei, sempre a equipa que joga melhor vence. Ou seja, trata-se de um jogo mais previsível. A dificuldade natural de marcar golos, por alguma razão, torna o desporto bretão diferente. A previsibilidade de uma partida de futebol é limitadíssima: mesmo depois de assistirmos ao primeiro tempo inteiro, podemos apenas falar de probabilidades – tal equipa é favorita, tal equipa está jogando mais -, mas nunca dizer com certeza quem vai vencer (a não ser que o jogo termine 4 a 0 no primeiro tempo, e mesmo assim convém ficar com o pé atrás). É essa mágica “quântica” o que dá sabor ao futebol, permitindo que, vez por outra, David derrote Golias.

(Minha versão final do artigo) É o que motiva os adeptos de Angola, Irão, México, e apavora (ainda que pouco) os portugueses. A despeito de todos os craques (Ricardo Car-valho, Cristiano, Figo, Deco, que me perdoem), Portugal ainda corre o risco de perder. Tomara que não. Mas a natureza do jogo não me incomoda. Ao contrário, anima-me: qual é o valor de uma vitória se não há o perigo da derrota?”. Sonho, desde que jogo e vejo futebol, numa final: Brasil-Portugal (no caso bastará meia-final). Desde que não seja possível insultar, com um palavrão obsceno, em directo para milhões de crianças, a mãe de nenhum dos titulares. Pesadelo suave era a final, antes de nós, Espanha e uma seleção “emergente” ou “detergente”, mas não me é permitido fazer apostas explícitas.

3. Imagino que um apaixonado religioso da “arte dos pobres”, o futebol, conta-me a homilia solene e ungida, de um padre brasileiro, nestes termos. Houve uma final de campeonato em que o adversário ganhava de 1 X 0 e nada da equipa da casa conseguir empatar. O treinador (Deus) resolveu então colocar em campo (na Terra) sua arma secreta: um grande avançado (Jesus). Ele entrou e “comeu a relva e a bola”, empatou e virou o jogo, no derradeiro fim de tempo. A equipa da casa (Humanidade) conquistou o campeonato, e o avançado declarou que “o troféu é o meu corpo e o meu sangue para o alimento de todos”.

Como alguém já profetizou, vamos todos, de derrota em derrota, até à vitória final (ou vice versa!?). Melhor ainda: “Ganamos, perdimos, igual nos divertimos”.

4. Para quem não gosta. Considero de mau gosto e insuportável que se faça mais um comentário; que haja uma insípida alusão; até a possibilidade duma crítica sequer. Sentenciam: basta de “pão e circo”. Claro que o problema está na sua formalização unidimensional do contexto sociológico, ou porventura, nas suas raízes antropológicas indispostas. A festa do belo, da vontade de poder e da religião pagã (por excelência e para heresia de muitos, ecuménica), esta aí, para durar. Somos deuses, no campo, e semi-deuses, fora dele; nas bancadas ou olhos nos televisores. Voltamos à condição de simples mortais no fim do jogo. A vida é apenas um jogo transcendental. O campo pode ser pelado.

E para quem odeia futebol. É bom esclarecer que esta “paixão religiosa” não se reduz a um grupo de pessoas correndo atrás da bola. Apesar de reconhecer não ser fácil explicar a um extraterrestre como funciona o “fora-de-jogo”. A propósito, não estará aí a mão do demo, qual pecado originário.

E para a maioria esmagadora de nós mortais. Porque ainda não estamos preparados para a aldeia global; apreciemos, agora, o futebol global. “O mundo entre amigos”, ora aí está o slogan perfeito, da paixão e da religião, totalmente, aberto à pós-modernidade. O futebol é uma paixão. O futebol é uma religião. Nem só de futebol vive a humanidade. Só de quatro em quatro anos. Também aos fins-de-semana, no campeonato, e às quartas-feiras, na liga dos campeões. Está na altura de trocar os exércitos por equipas para-militares. Não seria difícil, porque marcar/sofrer um golo é um facto, simultaneamente, sádico/masoquista.

5. Fica aqui um excurso necessário. Na guerra dos patrocinadores, só menciono o material desportivo: em 1998 a Adidas ficou com o 1º lugar; a empresa rival a Nike, teve de aceitar o 2º e 4º lugares. A inesperada Lotto ganhou o 3º lugar. Já em 2002, em termos de mercado, a Nike conquistou o 1º e o 4º lugares, e a Adidas obteve o 2º e o 3º. Alguém dirá: que interesse tem isso? É a paixão e religião do futebol, no lado das trevas.

Repare que já não há equipamentos de seleção virgens e tradicionais. Tudo se joga nas cores da transmissão televisiva. Repare, se possível, no tempo que os jogadores demoram a amarrar, em pleno jogo, as chuteiras, ou trocam de chuteiras (?!) durante o jogo. Para mim, 2006, a surpresa pode vir da marca Puma, e mais não digo.

6. Escrevo e penso o futebol, porque a paixão indomável tem de ser racionalizada; e porque toda a racionalização apaixonada, deve abrir à religião, jogo-aberto, para não ser estéril. Indico na minha biografia: a participação e inscrição na categoria de “infantil” pelo R.D.A.(fica mesmo assim…); não faltava aos treinos, por isso, fui convocado para o último jogo, como suplente. É para mim inesquecível a entrada em campo, e o sabor da vitória no balneário. Depois, foi a paixão seminarística, vivida a 100%, com direito a medalha e a integrar a seleção de honra, até terminar tudo, prematuramente, em operação cirúrgica, dois em um, menisco e ruptura de ligamentos.

Tenho o futebol na alma e no corpo, isto é, paixão e religião (não praticante no caso!?). Atenção: não mudo os horários das missas, planejo, antes, arduamente a pastoral do conjunto (minha e dos adversários…).

Chapadinha, 13 Junho de 2006