Livro Os deuses gregos. A Ilíada e a Odisseia. A Bíblia. A história grega e romana. A emergência do cristianismo. A Idade Média. Carlos Magno. O Renascimento. Lutero e Calvino. As guerras religiosas. O Iluminismo. As guerras mundiais. As grandes obras da literatura europeia. A história da pintura. A historia da Música. A Filosofia. Marxismo e liberalismo. A ciência. Freud. Sociedade tradicional e moderna. A evolução da família. O feminismo. A linguagem. A gramática. As identidades nacionais. A inteligência, o talento e a criatividade.
Um livro que fale disto tudo parece excessivo. Mas a obra de Dietrich Schwanitz aborda esses e muitos outros assuntos. E aborda-os de uma forma tão simples, tão assertiva e profunda que quem abrir o livro à sorte e ler um parágrafo completo não resiste a ler três ou quatro páginas de seguida, apesar de o tamanho de letra ser minúsculo.
A presunção que o subtítulo da obra parece encerrar, “Tudo o que é preciso saber”, acaba por se revelar sem fundamento. Não há, de facto, presunção. Há uma erudição que domina as principais áreas do conhecimento, um talento que relaciona política, literatura e religião de forma por vezes tão inesperada quanto esclarecedora, uma vontade genuína de partilhar aquilo que distingue e une os seres humanos: a cultura.
Este livro tem duas qualidades que distinguem as grandes das pequenas obras: a sua leitura ilude a passagem do tempo e leva-nos a desejar ler outros livros. Ou seja, é uma janela para o conhecimento e ao mesmo tempo obriga-nos à humildade de admitir que nunca leremos tudo o que gostaríamos de ler (e que mereceria ser lido).
As primeiras dez páginas da obra, “Introdução sobre o estado das escolas e do sistema educativo, que o leitor pode saltar sem perder grande coisa”, embora reflectindo a realidade alemã (o autor é alemão), deveriam ser lidas por qualquer professor português. Repare-se neste parágrafo (um entre os 52 dessas dez páginas):
“(…) Os ministros (…) e as administrações escolares, cujos representantes mal devem conhecer a situação nas escolas por experiência própria, retiraram aos professores a maior parte dos meios disciplinares, de modo que agora existe uma desigualdade de armas absoluta. Castigos como repreensões, admoestações, notificações dos pais e – no caso de faltas graves – a ameaça da exclusão ou da exclusão efectiva da escola encontram-se tão cerceados por regulamentos, requerimentos, votações e reuniões escolares que qualquer professor prefere prescindir deles: com todo este aparato, ele castigar-se-ia sobretudo a si próprio. Como os alunos estão a par disso, ainda fazem troça dele.”
Mas, atenção, o livro não é sobre educação. É sobre cultura. O autor escreveu-o como resposta à pergunta com que o inicia: “Quem não conheceu a sensação de frustração quando, na escola, a matéria que era suposto aprender se lhe afigurava como que morta, como que um amontoado de factos desprovidos de interesse que nada tinham em comum com a sua própria vida?” As quase seiscentas páginas que se seguem, contra a mediocridade de alguma educação e a esterilidade de muito intelectualismo, constituem uma “História da Europa como um grande relato”. A sua leitura dá a sensação de privilégio. E compreendo agora por que é que alguns leitores, no final da leitura de um livro, escrevem ao autor a agradecer.
Cultura. Tudo o que é preciso saber.
Dietrich Schwanitz
Ed. Dom Quixote
575 páginas
