Restos mortais do principal impulsionador da criação da paróquia e freguesia, Prior Sardo, inauguraram jazigo da paróquia.
“Celebramos a história e o dinamismo de um povo que habitou esta terra e das areias soltas e movediças que o vento não deixava descansar fez o húmus fecundo de um oásis abraçado pela ria e beijado pelo mar. E deste «lençol de areia», onde o «sol salgado» diariamente se espelha, nasceu o berço abençoado de um povo que sabe associar a inteligência, o trabalho e a tenacidade à alegria de viver, à fé e à fortaleza que lhe vem de Deus”. Estas palavras são de D. António Francisco, Bispo de Aveiro, na homilia da missa dos 100 anos da paróquia e freguesia da Gafanha da Nazaré, celebrada no dia 31 de Agosto, quando se completavam 100 anos sobre assinatura do decreto de erecção da paróquia e freguesia, pelo Bispo de Coimbra, D. Manuel Correia de Bastos Pina. Ainda faltavam 28 anos para ser restaurada a Diocese de Aveiro.
O dia principal celebração dos 100 anos, além da Eucaristia muito participada pelos gafanhonazarenos, contando também com sacerdotes naturais da freguesia ou que a serviram, incluiu a trasladação sentida dos restos mortais do P.e João Ferreira Sardo (1873-1925), que foi o principal impulsionador da criação da paróquia, para o jazigo da paróquia. No cemitério da freguesia, o Bispo de Aveiro afirmou: “[Com a trasladação] prestamos homenagem a todos os sacerdotes que serviram a paróquia ou que aqui nasceram. No Prior Sardo louvamos o Senhor por todos os nossos mortos. E que este olhar de esperança nos fortaleça na fé. Quem parte não vai só. Há sempre algo de nós que parte. Mas connosco fica sempre algo de quem parte. P.e João Ferreira Sardo, em si agradecemos os milhares de pessoas que construíram a comunidade que somos e fizeram deste povo um povo abençoado por Deus”.
Monumento de símbolos e bolo gigante
A comemoração ficou ainda marcada pela inauguração de um monumento no exterior da igreja. A espiga, o peixe e a estrela em ferro fundido, conforme explicou o pároco, P.e Francisco Melo, são símbolos cristãos e da paróquia. A espiga remete para a terra de agricultores e colonizadores que é a Gafanha da Nazaré e para o Pão da Eucaristia; o peixe lembra a ligação à ria e ao mar ao mesmo tempo que é um símbolo secular dos cristãos, usado como identificação principalmente no tempo das perseguições; a estrela é um símbolo de Maria, padroeira da Gafanha da Nazaré, a “estrela do mar” que guia para Jesus Cristo.
O dia do centenário terminou com a música do P.e António Maria Borges (sacerdote brasileiro e cantor, ligado ao movimento de Schoenstatt, que colaborou na paróquia) e com um grande bolo de aniversário oferecido pelas pastelarias locais e partilhado pelas centenas de pessoas que assistiram ao concerto e ao fogo-de-artifício no Jardim chamado precisamente “31 de Agosto”.
Jorge Pires Ferreira
Olhos no futuro
Comunidade jovem, a Gafanha da Nazaré tem pouca história – a sua área surgiu da ria e do mar nos últimos 300 anos – mas olha com confiança para o futuro. No dia 31 de Agosto, aludiu-se sempre ao futuro. P.e Francisco Melo, pároco, realçou que “fazer história é caminhar para Deus”. “O futuro tem de continuar” e isso que passa, sem dúvida, por “cumprir o homem”, “tarefa de todos nós”.
D. António Francisco realçou que “as grandes horas de memória e de gratidão são sempre vigílias de novos dias e anúncio de novos caminhos”. Noutro momento, afirmou: “A lição de vida e o testemunho de fé que do tempo e das pessoas recebemos animam-nos a caminhar com dinamismo novo para ir sempre mais além em projectos pastorais e iniciativas que nos renovem o coração e nos mobilizem para a acção em prol de uma sociedade livre, justa, solidária e fraterna”.
Ribau Esteves, presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, usando a palavra no final da Eucaristia, a convite do pároco, lembrou um cântico litúrgico acabado de cantar que dizia “Tu minhas mãos requisitas” e frisou: “Temos de responder positivamente ao desafio de fazer mais e melhores coisas pela nossa querida terra”.
Prior Sardo, fundador e “rei”
“Em artigo publicado em «O Ilhavense», no dia 1 de Dezembro de 1958, o Padre Resende afirma que o Prior Sardo «dava ordens e directrizes em que era obedecido sem restrições ou quaisquer objecções, criando por esta forma ambiente favorável à criação da freguesia, que ele desde há muito trazia em mente». Noutro passo do seu artigo, garante que o Prior Sardo era considerado «o rei daquelas terras», sendo o primeiro a entender , «diante de Deus e dos homens, que devia interferir oportunamente com a sua autorizada acção e eficaz campanha na independência desejada». Assim, «reconheceu a necessidade de ingressar nos segredos da política dominante e agir dentro dela, como era costume, naqueles tempos, qualquer entidade que solicitasse uma mercê»”.
Fernando Martins in “Gafanha da Nazaré, 100 anos de vida”, pág, 80-81.
