Foi o primeiro acto que D. António Francisco quis realizar comigo, após a sua chegada: um gesto expressivo de gratidão e de comunhão. Sábado, a meio da manhã, aí rumámos os dois até Coimbra, ao encontro de D. Manuel. Os seus quase 89 anos e as normais limitações que a idade acarreta, não lhe permitiram deslocar-se a Aveiro para receber o novo bispo que chegava. O nosso gesto desejado e programado era o encontro dos três. Assim foi naquela manhã.
Não é habitual e, ainda menos, frequente, que um bispo que chega à diocese que lhe foi destinada, encontre a seu lado dois dos seus predecessores. Por isso, impunha-se, para mútuo estímulo, um gesto de gratidão e de comunhão.
D. Manuel esperava-nos ansioso. Tinha uma lembrança para cada um de nós, que quis entregar-nos logo. Uma caixa de bombons com um cartão escrito por seu punho. Não consegui ler mais que o seu e o nosso nome, mas senti o calor do seu abraço fraterno. Comovi-me. Ele já não é de muitas palavras. A sua riqueza interior e de comunicação exprime-se mais pela presença, que logo vimos feliz e grata. Fomos concelebrar a Eucaristia. Connosco o Reitor do Seminário e o Director Espiritual, um pequeno grupo de seminaristas e as duas senhoras, Martas e Cireneus, no dia a dia de D. Manuel. Até o sol se associou, invadindo a capela com o conforto da sua luz e quentura reconfortantes. Depois, o almoço que o Reitor, antigo aluno de D. Manuel e seu amigo dedicado e atento, mandou preparar com a habitual gentileza. Era uma festa íntima, mas uma festa. Um momento de despedida, e deixamos D. Manuel já em repouso, que assim o exigiam as emoções, sempre mais desgastantes que os trabalhos.
Estes gestos acontecem mais na Igreja, essa misteriosa família de irmãos do coração, a que a fé esclarecida dá o reforço que outros laços, mesmo os do sangue, por vezes, não conseguem dar. Gesto de gratidão e de comunhão, foi o vivido pelos três, em uníssono.
A gratidão, de quem se insere num projecto em que outros já se empenharam e continuam a empenhar-se, a tempo inteiro e sem reserva de energias, a que Deus dá, porque ele é seu, contínuo e generoso incremento, é sempre um sentimento profundo que estimula os elos da mesma corrente, haja bonança ou tempestade, até que outro chegue um dia e o tome entre mãos, como um novo elo. A sucessão na Igreja não rompe laços que Deus teceu, mas reforça, conforta e alenta a dedicação dos que por eles estão unidos.
A comunhão é a originalidade da Igreja. Só ela dá consistência ao que se pode esperar como esforço pela fidelidade de um rumo com sentido, de um compromisso sem condições, de uma entrega sem perdas nem riscos.
A Igreja e a sociedade precisam, mais ainda em horas de mudança e de memória enfraquecida, de gestos que exprimam gratidão e comunhão. Só nestes há esperança.
Três bispos da mesma história, fiéis ao mesmo projecto, comprometidos na mesma missão, a mostrar que rostos, tempos e nomes não marcaram nunca o essencial das suas vidas. O essencial está sempre centrado em Jesus Cristo. Aquele que é de Ontem, de Hoje, de Sempre e continua na Igreja, também pelo ministério do Bispo, a fascinar muitos outros de variadas vocações e a mesma vocação que, no caminho do Mestre, fazem a experiência única e nela permanecem de que “há mais felicidade em dar do que em receber”.
Com este encontro inesquecível, que dispensou a televisão e os habituais repórteres, ficou enriquecida a história da Diocese, e esta, assim esperamos, mais Igreja de Cristo, com rumo bem definido numa sociedade que cedo se apercebeu do contributo espiritual e humano que daí provêm para estimular os seus grandes sonhos e projectos.
