Gota a gota, aguar a vida

Joana Portela Mãe e Revisora de Texto
Joana Portela
Mãe e Revisora de Texto

Eu e água

A água arrepiada pelo vento
A água e seu cochicho
A água e seu rugido
A água e seu silêncio
A água me contou muitos segredos
Guardou os meus segredos
Refez os meus desenhos
Trouxe e levou meus medos
Grande mãe me viu num quarto cheio d’água
Num enorme quarto lindo e cheio d’água
E eu nunca me afogava
O mar total e eu dentro do eterno ventre
E a voz de meu pai, voz de muitas águas
Depois o rio passa
Eu e água, eu e água, eu…
Cachoeirinha, lago, onda, gota
Chuva miúda, fonte, neve, mar
A vida que me é dada, eu e água
A água lava as mazelas do mundo
E lava a minha alma, lava minha alma

Caetano Veloso,
na voz de Maria Bethânia

 

Água, Nizar, 2008
Água, Nizar, 2008

 

 

“Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.” Esta sabedoria límpida de Madre Teresa de Calcutá seria um óptimo bote para as marés de reflexão que se esperam, com as crianças, no próximo Dia Mundial da Água, a 22 de Março. Além de ser, claro, um fecundo princípio de vida a transmitir, de onde em onda, a esses orvalhos do amanhã.
Comecemos por recordar a nós mesmos que, neste Planeta Azul, 768 milhões de pessoas não têm acesso a água potável; que, em todo o mundo, 1400 crianças morrem, a cada dia, de doenças diretamente relacionadas com água contaminada; que em muitas regiões do globo a água para beber é mais cara que petróleo. Lembremos que a procura mundial de água vai aumentar 55% em 2050, com mais de 40% da população a viver em bacias hidrográficas ameaçadas pelo stress hídrico. Que Portugal, com um consumo anual de 2505 metros cúbicos per capita, tem uma das pegadas hídricas mais elevadas, ocupando a 6ª posição entre 140 países. No entanto, nós, que vivemos neste “jardim da Europa à beira-mar plantado”, abençoado por frescas fontes e rios doces, nem sempre estamos cientes desta realidade: a água potável é um bem escasso e limitado, que tantas vezes por dia jorra caudaloooosamente – mas não cautelosamente – pelas nossas torneiras fora.
Muitas vezes, os maus exemplos vêm de cima. Na piscina municipal coberta que serve as crianças e escolas do concelho onde resido, o desgovernado desperdício de água é profundamente deseducativo. Um aviso afixado na zona dos chuveiros adverte: “Deixe correr a água durante 3 minutos antes de tomar duche”. É por questões de segurança, mas obviamente não podia ser esta a aquosa (dis)solução. Os chuveiros não têm torneira de água fria! E a água quente jorra, nos longos minutos iniciais, a uma temperatura insuportável. À vista nua e aprendiz das crianças, desperdiçam-se, ralo abaixo, rios e rios de água quente – limpa, intocável, perdulária. Num país que não nada em dinheiro, mas parece nadar em água ilimitada, acredito que os bons exemplos terão mesmo de vir de baixo, em contracorrente.
Uma educação para a água, orientada para os mais novos, pode fazer-se de muitas formas. E algumas são gestos bem simples, pois as crianças são bastante permeáveis à preservação dos recursos, se iniciada desde cedo e de forma continuada. Lá em casa, os miúdos levam muito a sério (e até com excesso de zelo) as suas funções ecológicas: o mais velho é responsável por fechar todas as luzes desnecessariamente acesas; a mais nova, qual Quincas Berro d’Água, por gritar o alerta “tanta ááááágua!” quando as torneiras jorram mais do que o suficiente. Talvez uma gota a menos na torneira seja amanhã uma gota a mais no mar de Madre Teresa.
Uma reflexão sobre a água, com as crianças em idade escolar, poderia partir, por exemplo, do estudo/cálculo da pegada hídrica pessoal, nacional e mundial. Ou podemos levar a água ao moinho de outra forma, a partir do próprio verbo aguar: como verbo transitivo, significa “encher de água, regar”; como verbo intransitivo, significa “sentir grande desejo, desejar ardentemente comer ou beber alguma coisa”. E, afinal, através do Estudo do Meio, da Matemática ou do Português, desaguaremos na mesma conclusão: o mundo divide-se entre aqueles que dispõem de tanta água que podem, gozosamente, regar a vida e aqueles que, ardentemente, continuam aguando por água, por vida. A vida que me é dada, eu e água…
A água lava as mazelas do mundo. Temos água, temos vida, temos gente. Que nos falta para lavar as mazelas do mundo? Vontade de ser gota? Sugiro que mergulhemos na Internet, com os miúdos mais velhos, para pesquisar a acção de alguns adolescentes que, com os seus exemplos gota a gota, estão a ser fonte de vida: Mariah Smiley (“Jovem de 18 anos leva água potável a países pobres”); Deepika Kurup (“Garota de 14 anos inventa purificador de água revolucionário”); Boyan Slat (“Jovem de 19 anos cria sistema que remove plástico dos oceanos”). E, para aprofundar, lavemos todos a alma com o conto “A cidade dos poços”, disponível no site “Histórias em Português”. Eu e água, eu e água, eu…
Cachoeirinha, lago, onda, gota / Chuva miúda, fonte, neve, mar e o ciclo da água a rimar com remar. Para os mais pequenos, duas sugestões de leitura: A Menina Gotinha de Água (Campo das Letras) e Amiga Água, de José Jorge Letria e André Letria. Para os mais velhos, prescreve-se um copo de Água com Humor (ASA), ao iniciar o dia. Para famílias e escolas, o desafio de uma visita: ao Museu da Água, em Lisboa; ao Pavilhão da Água, no Porto; ou ao Fluviário de Mora, no Alentejo. E, na viagem, nada melhor que ouvir a senhora das águas, Maria Bethânia, cantando Dentro do Mar Tem Rio…
A valorização da água pode começar ainda mais a montante, através da exploração local e transdisciplinar da bacia hidrográfica. Com a Primavera acabada de chegar, que miúdo não quer os pés molhar? E, para deixar água na boca, aqui ficam dois documentários inspiradores, de jovens portugueses, que bem podiam ter sido incluídos no recente Plano Nacional de Cinema: o premiadíssimo “Mondego”, de Daniel Pinheiro, e o “Vale do Tua”, de António Castelo e António Vasconcelos. Depois o rio passa e vemos à transparência aquela verdade líquida do escritor Guimarães Rosa: “Perto de muita água, tudo é feliz.”
Para o Dia Mundial da Água, o desafio para miúdos e graúdos é este: ser feliz, à beira-rio, à beira-mar, à beira-lago, ou à chuva, escutando…
A água arrepiada pelo vento
A água e seu cochicho
A água e seu rugido
A água e seu silêncio
… e sentindo crescer a sede de ser gota.