Grandes Aveirenses

Na semana passada, o Correio do Vouga divulgou uma lista de “grandes Aveirenses”, eleitos por figuras de destaque da região, na actualidade. Esta semana, apresentam-se notas biográficas de alguns “grandes aveirenses” que anteriormente foram apenas nomeados.

OS ESCOLHIDOS

Os grandes aveirenses escolhidos foram os seguintes: Antónia Rodrigues; Pe. Arménio Costa; Cecília Marques Maia Sacramento; Eng. F. Gonçalves Lavrador; Dr. Fernando Moreira Lopes; Fernando Pessa; Francisco do Vale Guimarães; Francisco Manuel Gravito da Veiga e Lima e os Mártires da Liberdade; Gustavo Ferreira Pinto Basto; Homem Cristo; Infante D. Pedro; Jaime de Magalhães Lima; Princesa Santa Joana; João Afonso de Aveiro; D. João Evangelista de Lima Vidal; João Jacinto de Magalhães; José Afonso; José Estêvão Coelho de Magalhães; José Ferreira Pinto Basto; Manuel José Mendes Leite; Lauro da Silva Corado; Lourenço Simões Peixinho; Eng. Luís Gomes de Carvalho; e Eng. Oudinot.

Os mais “votados”, por ordem de preferências, foram: José Estêvão; D. João Evangelista; Santa Joana; Mendes Leite; José Afonso; e João Afonso.

COMENTÁRIOS DOS LEITORES

Quer comentar as escolhas ou sugerir nomes que no seu entender deviam fazer parte desta lista? Pode escrever para cv@cv.mail.pt ou para Correio do Vouga, Rua Batalhão Caçadores Dez, 81, 3810 – 064 Aveiro

Brites de Lara e Meneses (1560-1648)

Jovem viúva, Brites (ou Beatriz) de Lara recolheu-se em Aveiro, no início do séc. XVII, após a morte do seu marido, Pedro de Médicis (filho do Grão Duque da Toscana, Itália), militar ao serviço de Espanha. Brites de Lara era filha do primeiro duque de Vila Real.

Em Aveiro, enquanto vive no Convento de Jesus, manda construir um palacete para si, com intenção de posteriormente o doar às carmelitas. O palacete fica terminado em 1616, mas os primeiros a habitá-lo são os carmelitas descalços, que entretanto se fixam na cidade. Em 1620 os carmelitas mudam-se para Sá e Brites Lara ocupa a sua casa. Ao longo do resto da vida, sem sucesso, tentará transformar o edifício em convento feminino de carmelitas. Brites de Lara morre em 1648. Só em 1657 o edifício da actual Praça Marquês de Pombal é transformado de facto em convento feminino.

O túmulo de Brites Lara está na Igreja do Carmo, visto que também foi benfeitora desta igreja e do convento associado. Dizem as crónicas que em 1897, durante obras de restauração da Igreja do Carmo, o túmulo foi aberto e o corpo da benfeitora, envolvido em cal petrificada, estava intacto.

João Afonso de Aveiro (séc. XV)

Não se sabe ao certo quando nasceu ou morreu João Afonso de Aveiro, mas sabe-se que em 1484 descobriu a “terra do Benim, além da Mina, nos rios dos Escravos”, no Golfo da Guiné (costa ocidental africana), e que foi o primeiro a trazer para Portugal “pimenta da Guiné”. Dele diria o cronista João de Barros que, enquanto navegador de D. João II (irmão de Santa Joana), teve acção decisiva na descoberta do caminho marítimo para a Índia, como se pode ler, aliás, no pedestal da estátua de Euclides Vaz, no Rossio de Aveiro. Julga-se que João Afonso de Aveiro morreu no Benim.

Não devemos confundir este navegador com o poeta homónimo. De facto, existiu um outro João Afonso de Aveiro, no séc. XV, que tem poemas recolhidos no “Cancioneiro Geral” de Garcia de Resende. O poeta João Afonso escreveu também um vaticínio da “perdição de Castela”.

Francisco Manuel Gravito da Veiga e Lima (1776-1829) e os “Mártires da Liberdade”

Nas lutas do séc. XIX, entre liberais e absolutistas, distinguiram-se o desembargador Francisco Manuel Gravito da Veiga e Lima (que morava na Casa dos Morgados da Pedricosa) e outros aveirenses, a quem foi atribuído o epíteto de “Mártires da Liberdade”. Eram adeptos de D. Pedro e da Carta Constitucional e revoltaram-se contra D. Miguel, que pretendia o regresso ao regime absolutista (mas que acabaria por ser derrotado). Os “aveirenses” Francisco Manuel Gravito da Veiga e Lima (nascido em Lisboa), Francisco Silvério de Carvalho Magalhães Serrão, Manuel Luís Nogueira e Clemente da Silva Melo Soares de Freitas, implicados na revolução de 1828 (com o Batalhão de Caçadores Dez), foram condenados à morte, no dia 9 de Abril de 1829, e enforcados e a seguir decapitados, no dia 7 de Maio, no Porto. Nos dias seguintes, a cabeça de Francisco Gravito foi exposta em frente da Câmara Municipal de Aveiro, a de Francisco Silvério à entrada do Rossio e a de Manuel Nogueira em frente ao Convento do Carmo (a de Clemente Soares de Freitas foi levada para Vila da Feira). Nos meses seguintes, outros aveirenses foram condenados, à forca ou ao degredo, por lutarem pela liberdade preconizada pela Carta Constitucional. Ficariam na história como “Mártires da Liberdade”. (Fonte: Aveiro, Notas históricas, de João Gonçalves Gaspar).

José (Zeca) Afonso (1926-1987)

O autor de “Grândola Vila Morena” nasceu e viveu em Aveiro, até aos três anos de idade, com os tios, numa casa situada no largo das Cinco Bicas. Sucessivamente passou por Angola (onde estavam os pais), Moçambique, Belmonte (onde o tio era presidente da Câmara), Coimbra (onde estuda e inicia a carreira musical), Alcobaça, novamente Moçambique (professor de liceu) e Setúbal, onde se fixa. Símbolo da resistência democrática à ditadura, com forte consciência anticolonial, canta no III Congresso da Oposição Democrática (Aveiro, 1973).

Apoiou como candidatos à Presidência da República Otelo Saraiva de Carvalho (1976) e Lurdes Pintasilgo (1986). Não aceitou a Ordem da Liberdade em 1983, quando já se encontrava doente (seria vítima de esclerose lateral miotrófica).

Deixou gravados vários discos de originais que são autênticas obras-primas. Recordamos os principais: “Baladas e Canções”, “Cantares de Andarilho”, “Cantigas de Maio”, “Eu vou ser como a toupeira”, “Venham Mais cinco”, “Coro dos tribunais” e “Galinhas do Mato”. É o grande trovador português do século XX. A cidade de Aveiro só muito recentemente fez alguma justiça a este aveirense, atribuindo o seu nome a uma rua.

Fernando Pessa (1902-2002)

Nascido na freguesia da Vera Cruz, Fernando Pessa apresentava-se como “cagaréu”, apesar de ter vivido apenas até os dois anos em Aveiro. Cresceu em Penela, perto de Coimbra. Depois de trabalhar nos seguros e num banco, entrou para a Emissora Nacional, em Lisboa. Daí passou para a BBC, em Londres. Pela sua voz chegavam as notícias da II Guerra Mundial, numa altura em que Salazar restringia as liberdades civis. De regresso a Portugal, Fernando Pessa não conseguiu entrar na rádio, por causa do regime, mas participa na primeira emissão da RTP, em 1957, emitida da Feira Popular de Lisboa. Como jornalista televisivo, tornou famosa a expressão “E esta, hein?”, com que terminava as peças que denunciavam aspectos caricatos ou desagradáveis da vida do país. Fernando Pessa foi o decano dos jornalistas a nível mundial. Morreu no dia 29 de Abril de 2002, com 100 anos e 14 dias.