Correio do Vouga – Qual a maior traição – ou lacuna, para usar uma palavra menos forte – da Igreja atual ao Concílio?
D. António Marcelino – O fato de muitas coisas continuarem como se o Concílio não tivesse existido ou como tendo sido apenas um acontecimento do passado. Deste modo, se vai ficando pelos aspetos superficiais, deixando de lado o apelo de conversão e renovação que o Concílio comporta.
Para a maior parte das pessoas, como escreve na “Communio”, o bispo é sempre “o que manda na Igreja, o que manda nos padres”. Mas o que é o bispo, afinal?
O bispo é um cristão por Deus chamado ao ministério ordenado e, tal como Cristo, se sente cada dia enviado, como servidor, a todos os filhos de Deus e membros do seu Povo, para que todos “tenham vida e vida em abundância”. É um cristão que sente cada dia, ao vivo, as exigências da evangelização e a preocupação de que todos conheçam Jesus Cristo, o Salvador e por Ele ordena a sua vida e ação.
É crítico em relação ao aparato episcopal (os títulos, as armas ou brasões, os objetos de ouro…) e afirma que “ao anel e ao báculo, quanto mais simples mais significativos (…) juntaram-se outros adereços de saber alheio e profano, como o solidéu e a mitra, a que se teve de acabar por dar sentido cristão”. Faz lembrar o Abbé Pierre, que escreveu “Sonho que libertem os nossos bispos da mitra”, quando viu alguns bispos se riam de um bispo baixo, “com uma mitra quase tão alta como ele”.
É preciso libertar os bispos da mitra?
Se a mitra significa singularidade e poder à maneira humana, é preciso que o bispo se liberte dela como sinal de que o seu poder é sagrado e se exprime em serviço. Há títulos e símbolos episcopais que continuam marcados por tradições que nada tiveram a ver com o Evangelho e a missão apostólica. Que maior título para o bispo que chamá-lo de “irmão”, como Santo Agostinho quis para si próprio como bispo?
O seu artigo centra-se no episcopado. Se escrevesse um texto sobre os leigos, que pontos realçaria para que se cumpra o Concílio em relação à identidade e missão laical?
Proclamaria, a gosto e a contra gosto, como S. Leão Magno: “Reconhece, cristão, a tua dignidade”. Do reconhecimento desta tudo passa a ter sentido. Muitos leigos cristãos ainda aí não chegaram e vivem, sem culpa própria, presos pelas categorias humanas e sociais de “ clero, nobreza e povo” que o Concílio quis ultrapassar e destruir.
Para muitos, a mudança mais significativa do Concílio foi o fim das missas em latim. Hoje, em alguns setores, há leigos e padres que querem o regresso do latim segundo o ritual pré-Vaticano II, aliás permitido pelo Papa. Como avalia este regresso?
A liturgia foi, de modo mais visível, o aspeto da mudança operada. Mas aí está um aspeto de ficar a meio da renovação. O objetivo é dar sentido central ao louvor a Deus e à participação dos fiéis nesse louvor. Muitos não entenderam assim e ficaram extasiados pelo lindo papel que embrulhava o mais rico dos presentes. O latim continua a ter sentido, não absoluto, nas celebrações com assembleias de muitas línguas e culturas. O regresso ao latim, como objetivo necessário para alguns padres e leigos, denuncia uma nostalgia que se opõe ao Vaticano II e à renovação da Igreja.
No artigo que escreveu para a “Communio”, como noutros publicados neste jornal, tem-se mostrado preocupado com o desconhecimento do Concílio. Sugere, por isso, “iniciativas diocesanas e nacionais que ajudem a colmatar esta falta”. Pode concretizar?
A criatividade pastoral em ordem à missão da Igreja, feita com base no Evangelho e nas orientações do magistério e tendo presente a vida concreta e a cultura emergente, é um imperativo conciliar. Mas, enquanto o Concilio não chegar, de modo acessível, ao povo cristão, teremos sempre gente que manda ou que obedece, mas não renovação conciliar. Os sínodos diocesanos são um caminho que permite conhecer o Concilio. No mesmo sentido, de harmonia com a realidade das pessoas, não faltarão iniciativas válidas. O conhecimento do Concilio deve passar por todas as atividades pastorais, níveis de catequese, ação de caridade., quer nos conteúdos, quer na forma de os propor. Não se fica a conhecer o Concilio por ordens de cima, nem por arranjos ou colagens.
Se o Papa o consultasse sobre a realização de um novo concílio o que lhe diria? Se lhe pedisse temas, quais proporia?
Sinto que não necessitamos de um novo Concílio, pois que no Vaticano II que pretendeu levar a Igreja às suas fontes e às suas origens. Aí se encontra o caminho. Há porém, problemas novos das pessoas, das famílias, das comunidades e da imagem da Igreja no mundo, a que a mesma Igreja não pode ficar indiferente. Pensemos, por exemplo, no estatuto eclesial da mulher cristã, nas famílias desestruturadas pelo divórcio ou pelas novas formas de coabitação, o problema doloroso da natalidade, que exigem, sem demora, uma palavra orientadora da Igreja. Melhor será a decisão e a sua aceitação se não for um simples ato do Papa, aconselhado pelos serviços da Cúria Romana, mas uma expressão colegial e de comunhão com os bispos que, com ele, constituem o Colégio Apostólico. E isto pode fazer-se sem que seja necessário convocar um novo Concílio.
