Poço de Jacob – 121 Impressiona esse pormenor de comentário de S. João, quando ele fala da multiplicação dos pães e peixes, João 6,1-15. Quando lemos a Bíblia, não reparamos que há pequeninas expressões que parecem não ter importância alguma. Ouvi alguém pregar um dia: as frases inúteis do Evangelho. Expressões ou afirmações tão insignificantes que bem as poderíamos dispensar pois nada parecem fazer ali no texto que estamos a meditar. Por vezes até parecem não ter sentido.
Mas aprendi que, como na vida, essas expressões, insignificantes pela sua inoportunidade aparente ou simplicidade, podem guardar em si a “chave” da interpretação do texto segundo o que Deus nos pode dizer.
S. João usa muito isso no seu Evangelho, quando, por exemplo, numa passagem falando de dois discípulos de Jesus, diz o nome só de um deles, quando o Senhor os chamou aos dois… Mas comenta: Eram 4 horas da tarde… Aí entendemos que alguém que tenha guardado a hora em que sua vida mudou para sempre, só podia ser o discípulo anónimo. E não é muito difícil de entender que é o próprio João, aquele que escreve. Percebemos que, na vida, Deus está escondido nas coisas mais simples e não só no complexo, e que algo ou um alguém que parecem não significar nada podem abrir portas incríveis para a nossa vida mudar!
Na narração da multiplicação dos pães e dos peixes, João diz uma dessas frases: Estava próxima a Pascoa dos judeus. Entendemos que nada tem a ver com o contexto. Mas não nos custaria ver aí uma referência ao mistério pascal, que seria ensaiado naquele acontecimento da multiplicação, como uma liturgia verdadeiramente eucarística, pois a referência à Páscoa faz-nos de imediato situar na intenção da narração.
Quando jesus manda sentar cinco mil homens, numero provavelmente exagerado, sabemos que paisagem era aquela, a da região, e que aquela gente não escolhia relvado para fazer piqueniques. A referência à erva do local faz-nos lembrar aquela afirmação do Jesus que tinha pena da multidão por parecerem ovelhas sem pastor. E aquela do Salmo 23, que nos diz que, como um bom pastor, Deus leva-nos aos prados verdejantes…
Havia muita erva no local, não para comer, nem para se sentarem, mas para se sentirem, finalmente, ovelhas com Pastor, que nos leva a descansar um pouco e nos conduz para o alimento e para o abrigo… É nisso, entre outras coisas, que a leitura da Bíblia se faz apaixonante. Pode não ser assunto de alta exegese, mas, na linha de Santo Agostinho, a interpretação espiritual da Sagrada Escritura dá-nos forças, no século XXI, para não nos sentirmos abandonados pelo nosso Deus, pois “sempre haverá muita erva no local onde estivermos”. O Senhor nos guiará, nada nos faltará…
O milagre da multiplicação remete para o milagre da Eucaristia diária, também para o pão nosso que pedimos para a nossa mesa, e que, como o vinho de Caná, bem pode significar tudo o que precisamos para ser felizes, ou, melhor dito, tudo o que nos faça falta para sermos fiéis.
Vitor Espadilha
