História e fé

A Igreja já está habituada a estas iniciativas mediáticas. A proximidade do Natal e da Páscoa é propícia à investida de “cientistas” vocacionados e designados para desacreditarem as verdades da fé. E, como a opinião pública é mais sensível aos “dogmatismos” da comunicação social do que à verdade do cristianismo, convém sempre deixar um comentário, o qual, ao menos, faça reflectir e estudar aqueles que se dizem cristãos e que, com muita pena, primam tantas vezes pela ignorância.

A relação história e fé, a respeito de Jesus Cristo, foi sempre uma questão de profunda exigência de investigação e de humilde abertura aos vastos horizontes que a inteligência humana está longe de abarcar.

É, por isso, muito importante, ouvir e assumir palavras sóbrias de quem mergulha no mundo da cultura bíblica, no espaço e no tempo do desenrolar da história da Revelação, como quem busca e partilha os resultados da sua discreta e persistente procura, longe das pretensões de quem “«tem a pretensão de entrar, com um tom de intolerância desabrida», na área «da história da formação da Bíblia»” , como o fez José Rodrigues dos Santos.

Uma das regras da investigação histórica será a procura dos textos mais próximos cronologicamente das realidades que procuramos investigar. Não será uma tradução única, porventura tardia, com as limitações próprias das traduções, que me faz aproximar mais seguramente dos factos. A pluralidade das fontes possíveis de alcançar, a diversidade de atestação, a continuidade com a cultura envolvente, a originalidade comprovada, a compulsação e confrontação dos diferentes estratos redactoriais…, são factores indispensáveis a considerar por quem, mesmo fazendo romance, quer fazer romance histórico de qualidade.

Afinal, José Rodrigues dos Santos, na sua obra “O último segredo”, “confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe” – como refere a nota do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. O que não se pode é ignorar o facto de se vender um milhão de exemplares, de se ter uma obra traduzida em mais de quinze línguas. Os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz. E só é possível desfazer as suas perversas intenções com um discurso que desmonte o que se pretende “vender”.

Não é senão presunção atirar-se, de entrada, “garantir que tudo é verdade”. E firmar-se no “dogma” de que o método histórico-crítico é a “única chave legítima e verdadeira para entender o texto bíblico”. É por este “positivismo serôdio” que o autor promove a historiadores teólogos de seu interesse, apelidando de “obras apologéticas” os que o contrariam. Talvez por essa razão não se tenha dado ao trabalho de ler Bento XVI, no seu “Jesus de Nazaré”.

O livro é, formalmente, uma obra literária. E como tal deve ser abordado. Longe, portanto, de uma obra de história ou de exegese. Mesmo assim, é preciso ter em conta que “o que a verdadeira literatura faz é agredir a imitação, para repropor a inteligência. O que José Rodrigues dos Santos faz é agredir a inteligência, para que triunfe o pastiche”.

Certo é que, na manhã deste domingo, um acólito adolescente já falou das “certezas” apresentadas no livro; e um adulto em preparação para o Crisma se manifestou perturbado com o teor das dúvidas levantadas. É um facto: Vemos, ouvimos e lemos; não podemos ignorar!