A sociedade omissa quanto a valores espirituais e religiosos, a comunicação social fruto e fonte desta mentalidade social, não têm possibilidade de fazer a leitura dos fenómenos, dos acontecimentos religiosos, com profundidade satisfatória. Não basta ter critérios de análise, saber jornalístico. A religião e a fé ultrapassam as fronteiras do positivismo, movem-se para além das coordenadas do espaço e do tempo, ainda que vividas por pessoas que habitam o espaço e o tempo.
Ao encarregar Pedro de confirmar os seus irmãos na fé, ao constituí-lo rocha de apoio da Igreja, o Senhor Jesus estava a desafiar todos os cálculos humanos, os quais, no grupo dos doze Apóstolos, seguramente designariam outro para essa missão. É que as responsabilidades cometidas, mediadas pela sua pessoa, teriam um agente superior, a garantir a realização dos objectivos – o Espírito Santo.
No seu discurso aos Bispos de Portugal, Bento XVI falou a todas as Igrejas desta terra lusitana. Os seus Pastores foram, junto do Papa, os intérpretes da realidade eclesial que somos; serão, junto de nós, os mensageiros da solicitude de Pedro por todas as Igrejas. Por isso, se alguém quiser falar de “puxão de orelhas”, se é católico, terá de se incluir no número daqueles que são advertidos pelo Santo Padre.
Que a formação cristã tem de percorrer outros caminhos, todos temos consciência disso. Aliás, a dificuldade de veicular a Mensagem e a paixão por ela, por Quem ela manifesta, prende-se também com um défice geral de educação para valores e convicções, de amor ao trabalho, de fidelidade aos grupos de pertença. Se o país evoluir em qualidade de cidadania, estarão abertos novos caminhos para uma consistente iniciação cristã. A par, naturalmente, da necessidade de verdadeiras Comunidades cristãs envolventes.
Também a dificuldade de mobilizar a todos para a participação e corresponsabilidade, para uma criativa reformulação permanente de estruturas que sirvam a vida da fé, sofre os impactos de uma generalizada indiferença de compromisso – social, político, laboral… Um país de gente empenhada em ganhar o futuro, de mangas arregaçadas e cabeça levantada, favorecerá um empenho de laicado e clero, numa diversidade em comunhão, por uma testemunhal vida fraterna.
Estas notas não são desculpas. São apenas a chamada de atenção para o risco das leituras estrábicas; são um alerta para a tomada de consciência de que o Papa, na sua fraterna solicitude petrina, nos convoca a todos para uma renovação necessária. E constituem para a própria sociedade portuguesa indicações para desenhar e construir o futuro.
