À luz do dia Jacques Arènes, psicanalista, e Nathalie Sarthou-Lajus, teóloga, ambos franceses, são os autores de um livro muito interessante que dá que pensar.
La défait de la volonté (editora Seyuil, 2005, não traduzido para português) é uma profunda interrogação sobre o verdadeiro peso que têm, hoje em dia, o nosso destino e a nossa liberdade.
Jacques Arènes foi chamado pela Psychologies a sintetizar algumas das ideias-chave que desenvolve no livro e, desta síntese, resultaram três pontos essenciais que o psicanalista considera serem três “mecanismos assassinos” que podem dar cabo da nossa vida. Literalmente falando, note-se.
“As nossas estratégias de sabotagem” é o título da síntese em questão, onde o especialista francês explica os ditos mecanismos e dá pistas para os desactivar. Jacques Arènes começa por advertir contra o perigo das expectativas, dizendo que muitas pessoas as afundam na tristeza ou no desânimo, justamente por terem expectativas demasiado altas ou distorcidas da realidade. É importante ajustar as nossas expectativas, portanto.
Quanto aos “mecanismos assassinos” são os seguintes: a ruminação constante de ideias e sentimentos; viver, permanentemente, à defesa e sentir-se sempre responsável por tudo e por todos.
A boa notícia é que a esmagadora maioria das pessoas tem activado em si apenas um ou dois destes mecanismos, mas raramente os três. Antes assim.
Começando pela ruminação constante, muitos dos que passaram a ruminar as suas mágoas acham que vivem no “lado errado” da vida. Sentem-se menos amados e consideram que têm menos oportunidades que os outros. Nem sempre é verdade mas, mesmo que seja, a energia que consomem nesta ruminação negativa é um desperdício fatal. Ainda que seja infinitamente mais fácil teorizar do que concretizar na prática, é possível tomar consciência desta atitude e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para tentar contrariá-la.
“Quando os meus pacientes insistem naquilo que não têm ou não tiveram nunca, como o amor dos seus pais, por exemplo, digo-lhes que não podem refabricar a sua infância e fazê-la mais feliz. Por outro lado, sublinho que aquilo que eles viveram, mais ninguém viveu e é essa singularidade que os constitui como pessoas e lhes dá mais profundidade como seres humanos”, esclarece Jacques Arènes. A ideia é ajudar estas pessoas a mudar o olhar sobre si mesmas, de forma a terem uma percepção mais clara sobre a margem de liberdade que têm para lidar com a falta de amor ou a adversidade. E é esta margem que nos permite cultivar uma atitude mais negativa ou mais positiva.
Quanto aos que vivem permanentemente à defesa, o psicanalista francês é muito eloquente: “Controlam os acontecimentos para se protegerem e nunca arriscam nada do ponto de vista afectivo. São pessoas que se constroem muito sozinhas, estabelecendo metas demasiado ambiciosas e, na relação a dois, têm níveis de exigência desmedidos. Nunca ninguém realmente lhes serve, porque estão reféns dos seus próprios medos e ficam facilmente prisioneiros de ideais inalcançáveis.” Jacques Arènes sugere que baixem as defesas, identifiquem os seus medos e aceitem correr riscos, pois, caso contrário, arriscam passar ao lado da própria vida. “É importante dizer a estas pessoas que a vida não volta a servir os mesmos pratos. Muitas das oportunidades que se perdem no momento ficam perdidas para sempre.”
Finalmente, os que se sentem responsáveis por tudo. Estes são os que acham que são autores da própria vida e que chamam a si a responsabilidade por todos os fracassos. Os seus, os dos seus filhos, os dos seus pares e, até os dos seus amigos. Estas hiper-responsabilização pode traduzir-se de duas formas: a angústia permanente ou a vitimização constante. Jacques Arènes diz que ajuda muito pedir a opinião dos outros e ganhar distância crítica em relação aos acontecimentos e às pessoas que lhe estão próximas. Só assim é possível escapar a esta espiral perversa de auto-acusação ou justificação.
Enfim, resumindo a ciência deste especialista, vale a pena estar atento aos nossos “mecanismos assassinos” e neutralizar todas as nossas estratégias de sabotagem da vida. E da alegria.
