Dias Positivos Esperança. Li num livro de que não sou capaz de identificar o autor ou sequer o título: Um judeu era preso pelos nazis, depois de muito tempo em fuga de terra em terra. Ao entrar na a prisão, exclama: “Pronto, acabou-se o medo. Começa a esperança”. Lembro-me frequentemente desta frase perante a sucessão de más notícias com que somos atingidos.
Os males que nos afligem. Há dias, no jornal Público (15 de Julho), o sociólogo Jorge Gomes fazia um diagnóstico certeiro do estado de alma português: “Homens que se sexualizam em meninos, meninas atiradas a rios e a animais, mortes que são consideradas mais mortes do que outras, papéis assinados em tempo (in)útil, a eterna invisibilidade do défice, a chuva que sói cai noutro sítio, os fogos que aparecem sem convite, a vida dos deputados medida em anos, a segurança social e o seu prazo de validade, o travão na despesa, o acelerador nas exportações, o excesso de consumo e endividamento, a tecnologia que não existe, a inovação sem mudança, a qualificação sem valor acrescentado, a eterna formação longe do real, o aumento do desemprego, o empresário que (se) fecha deslocalizando-nos, a descoberta do envelhecimento (…). Enfim, a nossa vida e história recente têm sido, sem grandes desvios, um pouco de tudo isto”.
Dois provérbios e outras tantas lições. As notícias todos os dias dizem que vêm aí tempos mais difíceis, em termos económicos, do que seria de esperar há apenas uns meses. Um banqueiro chegou a afirmar há dias que a solução era cortar dez por cento em todos os ordenados. E o índices económicos (PIB, poder de compra, exportações, competitividade…) pioram de dia para dia. A questão é: O que fazer? Como sempre, há duas possibilidades (adapto um provérbio que uns dizem ser chinês, outros hindu; eu acho-o cristianíssimo): amaldiçoar as trevas (opção do insensato nos tempos difíceis) ou acender uma luz. Ou então estas: esperar que os outros façam uma estrada para eu avançar, ou arranjar um bom calçado que me permita percorrer os caminhos inóspitos. É claro que as estradas (as boas condições) têm de existir. Mas de pouco valem se os indivíduos não sabem para onde querem ir. Ora os que sabem, mesmo que os caminhos sejam maus, não desistem.
O tripé da crise. A crise do desenvolvimento português, quando a mim, é uma crise dos portugueses. De cada um de nós. Individualmente. E isso nota-se em três aspectos: Não somos pontuais (dizemos que não queremos ser escravos do relógio, quando estamos apenas a ser desleais para com os outros). Não lemos jornais nem livros (porque nos fazem pensar; a cultura custa). Não gostamos de matemática (porque temos horror à exactidão e ao exercício mental). O que é que isto tem a ver com o desenvolvimento? Tem tudo. Não há nenhum povo que seja pontual, goste de matemática ou leia muitos jornais que não seja desenvolvido. Os índices de leitura, desempenho matemático e pontualidade são directamente proporcionais ao desenvolvimento (como é que alguém pouco pontual e pouco dado a contas poderá cumprir os défices?). Uns dirão que são consequência. Mas há mais quem defenda que são causas. São daquelas relações mágicas que nos fazem pensar (como aquela que constitui a melhor defesa do sistema democrático: apesar das suas muitas falhas, nunca duas democracias andaram em guerra uma contra a outra).
Queremos ser desenvolvidos, estar preparados para a globalização, enfrentar melhor o futuro? Leiamos jornais (não necessariamente o CV), sejamos pontuais e aprendamos a gostar de matemática.
