Igreja, fermento de unidade

Revisitando o Vaticano II Em pleno rescaldo de eleições autárquicas, aquelas que tocam mais de perto a experiência da comunidade humana que cada um integra, vale a pena recordar alguns parágrafos da Gaudium et Spes, motivo de empenho sem condições na construção destas comunidades que se entrelacem numa ampla comunidade humana.

“Deus, que cuida paternalmente de todos, quis que todos os homens constituíssem uma só família e se tratassem mutuamente com espírito fraternal” – GS 24. A origem e fundamento de todo o esforço para se constituírem as sociedades, as comunidades, é a vontade fundante de Deus, o Qual, criando-nos, à Sua imagem, como seres em relação, tem para a pessoa humana o projecto de que ela não seja uma ilha, mas se realize na relação mútua de respeito e fraternidade.

“Entre os principais aspectos do mundo de hoje, há que assinalar a multiplicação de relações mútuas entre os homens, para cujo desenvolvimento muito contribuem os progressos técnicos actuais. Todavia, o diálogo fraterno dos homens não se realiza nestes progressos, mas mais profundamente na comunidade das pessoas, a qual exige o respeito recíproco da sua plena dignidade espiritual. A Revelação cristã dá uma grande ajuda para o desenvolvimento desta comunhão entre as pessoas e, ao mesmo tempo, leva-nos a uma mais profunda compreensão das leis da vida social, que o Criador gravou na natureza espiritual e moral do homem” – GS 23.

Sem desmerecer o valor dos progressos tecnológicos, os choques tecnológicos, a cultura da ciência…, certo é que a força capaz de consolidar as sociedades, de lhes dar uma configuração de tecido de relações sociais sadias, de lhes conferir dinamismo de cooperação, é o respeito pela dignidade plena da pessoa humana, incluindo a sua dimensão espiritual, que abre ao diálogo fraterno e constrói caminhos de harmonia social.

E, aqui, os cristãos têm a obrigação de duplo empenhamento: como qualquer cidadão, ombrearem no progresso social; e darem-lhe o vigor e a alegria de quem tira da fé a razão de ser desse empenhamento, já que, pela Revelação, sabem que o Criador projectou o ser humano para a relação.

A Igreja, serva da Humanidade, tem o direito e o dever de alertar os cristãos para a obrigação de olharem a realidade circundante com olhar crítico, de avaliar as pessoas candidatas e propostas programáticas, aferindo se o rumo vai no sentido de favorecer, de impulsionar e consolidar estas múltiplas relações das pessoas, de respeitar e ajudar a redescobrir a dignidade plena das pessoas… Ou se, pelo contrário, são pura demagogia, reflexos de velhos caciquismos, mitos de salvadores “extra-terrestres”.

Querubim Silva