À Luz da Palavra – XXIX Domingo do Tempo Comum – A A liturgia deste domingo convida-nos a reflectir sobre a forma como havemos de equacionar a relação entre as realidades de Deus e as realidades do mundo. Diz-nos que Deus é a nossa prioridade e que é a Ele que havemos de submeter toda a nossa existência. Adverte-nos, porém, que Deus nos convoca a um compromisso efectivo com a construção do mundo.
A primeira leitura sugere que Deus é o verdadeiro Senhor da história e que é Ele quem conduz a caminhada do seu Povo. As pessoas são apenas os instrumentos de que Deus se serve para concretizar os seus projectos de salvação. Por isso, Isaías apresenta Ciro, rei dos persas e medos, a ser chamado pelo Deus de Israel como o “seu ungido”, isto é, o “seu consagrado” ou Christós. Embora só os reis de Israel fossem ungidos, Ciro recebe também o título de ungido (messias), porque ele foi o agente de Deus na libertação do povo de Israel, quando este se encontrava exilado na Babilónia, reconduzindo-o a Israel, sua pátria, e facilitando a reconstrução do templo, que havia sido destruído. Deste modo, a Palavra esclarece-nos sobre o papel que o poder civil, mesmo que seja laico, pode e deve ter na construção da obra de Deus, tornando a vida das pessoas e dos povos mais livre e feliz.
O evangelho ensina-nos que o ser humano, sem deixar de cumprir os seus deveres para com a comunidade em que está inserido, pertence a Deus e há-de entregar-lhe toda a sua existência. Mas, muitas pessoas, no nosso tempo, constroem as suas vidas à margem de Deus, instalando-se no seu orgulho e auto-suficiência. O evangelho convida-nos a redescobrir a centralidade de Deus na nossa existência, porque fomos criados para a comunhão com Ele e só nos sentiremos felizes e realizados quando nos entregarmos confiadamente nas Suas mãos. Para o cristão e a cristã, Deus é a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar. Porém, o cristão e a cristã sabem que é no coração do mundo que vivem e testemunham a sua fé, pelo cumprimento exemplar das suas responsabilidades cívicas e pelo compromisso sério e coerente na construção da sociedade humana.
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de uma comunidade cristã, que colocou Deus no centro da sua existência e que, apesar das dificuldades, se comprometeu corajosamente com os valores e os projectos de Deus, e incita-nos a activar a nossa fé, a reforçar a nossa caridade e a tornar firme a nossa esperança. O exemplo desta comunidade interpela-nos, pois, apesar de ser principiante na vida cristã e de viver num ambiente adverso, abraçou com entusiasmo o Evangelho e concretizou a proposta de Jesus. Esta comunidade convoca-nos a deixar o pessimismo, que nos ensombra, e a comprometer-nos com entusiasmo renovado e coerente, na transformação da nossa vida, família, comunidade e do mundo em que vivemos.
Leituras do XXIX Domingo Comum: Is 45,1.4-6; Sl 96,1-5.7-10 (95); 1 Tes 1,1-5b; Mt 22,15-21
Deolinda Serralheiro
