O Leitor Pergunta – Grandes Teólogos – 3 John Courtney Murray (12-09-1904 – 16-08-1967) talvez seja o menos conhecido dos seis teólogos desta série (“Seis grandes teólogos do séc. XX”), mas não é certamente o menos influente na vida diária dos católicos em regimes democráticos.
Graças ao contributo deste padre jesuíta, norte-americano, o catolicismo pôde reconciliar-se com o pluralismo religioso, a liberdade religiosa e a ordem política democrática.
Convém ter em conta, nestes campos, o pensamento dominante na Igreja Católica até ao Vaticano II. Resumia-se nisto: Fora da Igreja não há salvação. Nós temos a verdade. Os outros estão no erro; devem converter-se. Quando muito, podem ser tolerados. O Estado deve ser confessionalmente católico. A pluralidade (política e religiosa) tolera-se, mas não é desejável.
Estas ideias podem parecer estranhas e exageradas, mas era o pensamento católico comum (não é difícil encontrar documentos para defender cada uma delas) e ainda hoje os seguidores de Lefébvre (que não aceitaram o Vaticano II) as subscrevem.
Diz Jean-Claude Eslin: “O catolicismo [em meados do séc. XX] tem dificuldade em se inscrever no processo da liberdade democrática (Emanuel Mounier e Jacques Maritain não escapam à dificuldade), em especial porque o pensamento católico dominante não pode integrar então a ideia de liberdade religiosa. Essa possibilidade é denegada pelos papas. Os teólogos só raramente se dedicam a estas questões, até que o jesuíta John Courtney Murray, nos Estados Unidos, as aborda, em 1960, num livro que teve um grande eco, We Hold These Truths.” (in Deus e o poder, Ed. Âncora).
Ora, o teólogo norte-americano estuda o constitucionalismo dos EUA (poderes limitados e separados, sob o domínio da lei) e mergulha na tradição católica que lançou os fundamentos da separação Igreja/Estado, para afirmar que não há incompatibilidade entre ambos. Isto veio a permitir que os católicos norte-americanos pudessem participar plenamente na vida política do país (algo que chegou a estar proibido em alguns cargos, como senador e presidente; dizia-se coisa do género: “Se obedece ao Papa, está dependente de outro Estado; logo não pode ser bom norte-americano”).
Courtney Murray esteve impedido de publicar na década de 1950, mas foi convidado para a segunda e terceira sessões do Vaticano II. A ele se deve a resolução do impasse que se verificava na declaração Dignitatis Humanae (sobre a liberdade religiosa – documento imprescindível para regular religião e vida pública), inspirando-se na tradição norte-americana das liberdades sob o domínio da lei e encontrando fundamentos na lei natural.
Actualmente o teólogo é lembrado no prémio John Courtney Murray, o mais importante da teologia católica nos EUA.
Uma última curiosidade, quando já se tem falado de algo semelhante em Portugal: é de J. C. Murray a ideia de distribuição de uma percentagem dos impostos recolhidos pelas igrejas alemãs, na Alemanha do pós-guerra.
J.P.F.
