Igreja no mundo operário

Ultimamente, tenho andado na animação pastoral de paróquias. A razão é simples e exigente: pôr em evidência a dimensão católica da fé e divulgar a doutrina social da Igreja. A ocasião é proporcionada por dois factores: o 1º tem a ver com o envio dos missionários leigos, que vão cooperar com os padres salesianos no próximo Verão; o 2º relaciona-se com o programa da Comissão Justiça e Paz.

É neste contexto que surge o meu contacto mais recente com os que vivem os dramas das situações laborais: São João da Madeira, Avanca, Cacia, Valongo do Vouga, entre outras. É nestes espaços que escuto vozes fortemente interpelantes, que aguardam novas atitudes dos responsáveis das comunidades eclesiais, consequentes com as orientações da Igreja. É nestas ocasiões que melhor capto a urgência de uma Pastoral Operária, fiel ao Evangelho lido na assembleia cristã e às aspirações mais profundas do coração humano. A pastoral – recorda o último Sínodo sobre a Igreja na Europa, nº 54 – há-de assumir a tarefa de imprimir uma mentalidade cristã na vida quotidiana: a família, a escola, a comunicação social; no mundo da cultura, do trabalho e da economia, da política, do tempo livre, da saúde e da enfermidade.

Tem por isso um horizonte muito vasto, abrange realidades muito diversificadas, propõe-se alcançar objectivos muito claros, embora complexos e exigentes. Com efeito, imprimir uma mentalidade cristã ou evangelizar a vida e as redes associativas que lhe dão suporte e implementação constitui um desafio envolvente de toda a Igreja. São estas redes associativas que vêm a configurar a pastoral, designadamente pelos agentes que envolvem, pelos recursos que mobilizam, pelas formas de relacionamento que estabelecem, pelos factores que procedem do contexto ambiental e exercem influência.

A Pastoral Operária é a acção da Igreja no mundo operário, apoiada por organismos especialmente vocacionados para esse fim. Surge como um espaço de reflexão e de partilha de experiências de evangelização do mundo operário, tendo como ponto de partida a vida operária, suas culturas e situações, lutas e sofrimentos, estruturas e sensibilidades. Participa na construção de uma sociedade nova pelo anúncio explícito de Jesus Cristo. Estimula a formação humana e cristã de militantes operários católicos e o seu empenhamento pessoal e comunitário.

Esta descrição tem sabor de definição, consta do documento estatutário aprovado pela Comissão Episcopal do Apostolado dos Leigos, em 1997, e caracteriza a Pastoral Operária de modo claro e preciso.

Esta pastoral privilegia meios diversos, destacando-se o método da revisão de vida, “não só pelo seu valor educativo mas, sobretudo, como lugar de escuta, em Igreja, da Palavra de Deus e de abertura ao Espírito Santo”. Promove e organiza encontros em pequenos grupos, autênticas comunidades eclesiais “ onde, com a participação de todos, mais facilmente se pode crescer em consciência operária e militante, em formas de empenhamento cristão e em vivência e celebração da fé”. Realiza iniciativas alargadas a pessoas não integradas nos seus organismos, para debate, reflexão e formação, a partir de situações, datas e acontecimentos significativos. Congrega os movimentos ou grupos que fazem trabalho de Igreja no mundo operário: JOC, LOC, MAAC (Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças), PEMO (Padres em Mundo Operário) e REMO (Religiosas em Mundo Operário). Procura uma acção concertada entre todos. Está aberta a outros organismos com fins semelhantes.

Quem vive este empenhamento apostólico e descobre, no dia-a-dia, que a acção pastoral e a presença da Igreja, em zonas de mentalidade e problemática características do operariado, é tradicionalista e desadequada das pessoas concretas, não pode ficar indiferente – confessa D. António Marcelino, então presidente da referida Comissão. Por isso, torna-se urgente um esforço conjunto dos movimentos da Acção Católica, dos padres e religiosas que exercem o seu ministério em paróquias ou bairros onde predominam os operários. Torna-se urgente condensar experiências e lutas, assumir problemas e procurar respostas para desafios com que tantos se debatem, convictos de que a Igreja no mundo operário precisa de maior visibilidade e de eficácia evangelizadora.

“ É preciso – exorta Paulo VI – que a Igreja nasça autenticamente no Mundo Operário, que esta possa exprimir-se aí, com a sua cultura própria, sem contudo formar uma Igreja à parte”. O Papa faz esta exortação, em 1972, ao receber em Roma uma delegação LOC/LOCF aquando do 1º Colóquio Europeu de Pastoral Operária. E João Paulo II, em 1993, garante que: “Um dos conteúdos mais importantes da nova evangelização é constituído pelo anúncio do ‘Evangelho do Trabalho’, que apresentei na minha Encíclica ‘Laborem Exercens’ e que, nas condições actuais, se tornou especialmente necessário. Supõe uma intensa dinâmica pastoral dos trabalhadores, tão necessária hoje como no passado”. Esta mensagem do Santo Padre é transmitida na Alocução de 15/I/1993. De forma muito semelhante se pronuncia o II Sínodo de Aveiro, há precisamente 10 anos.

Tantas vozes autorizadas a pedirem maior audácia apostólica. Quem não assume os desafios do Evangelho do Trabalho?! Quem não escuta a voz do mundo operário?! Quem não ousa ser mais coerente e ir mais longe na fidelidade às orientações da Igreja?!