Igreja – uma espiritualidades de comunhão

Revisitando o Vaticano II A humildade e a lucidez de João Paulo II dão-nos um contributo precioso para gerir a articulação da organização hierárquica com a comunhão fraterna, na vida da Igreja, transformando-a em verdadeira comunhão orgânica.

“Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milénio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo.

(…) Antes de programar iniciativas concretas, é preciso promover uma espiritualidade da comunhão, elevando-a ao nível de princípio educativo em todos os lugares onde se plasma o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes de pastoral, onde se constroem as famílias e as comunidades.” – NMI 43.

Esta espiritualidade supõe, antes de mais, um mergulhar do coração na Trindade, como a sua verdadeira fonte. Depois, a experiência profunda da comunhão fraterna no Corpo místico, para reconhecer o outro como um dom de Deus e lhe dar lugar, rejeitando todas as tentações egoístas e competitivas. “Não haja ilusões! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores da comunhão. Revelar-se-iam mais estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua expressão e crescimento.” – NMI 43.

E, sem rodeios, o Santo Padre começa precisamente por considerar a necessidade desta espiritualidade ao mais alto nível: “Como não pensar, em primeiro lugar, em dois serviços específicos de comunhão que são o ministério petrino e, intimamente ligada com ele, a colegialidade episcopal? Trata-se de duas realidades que têm o seu fundamento e consistência no próprio desígnio de Cristo sobre a Igreja, mas por isso mesmo necessitam de uma verificação contínua que assegure a sua autêntica inspiração evangélica.” – NMI 44.

Constatados os avanços que trouxe o Vaticano II (reforma da Cúria, organização dos Sínodos, funcionamento das Conferências Episcopais), Sua Santidade insiste que “há ainda muito que fazer para valorizar o melhor possível as potencialidades destes instrumentos de comunhão, hoje particularmente necessários tendo em vista a exigência de dar resposta pronta e eficaz aos problemas que a Igreja tem de enfrentar nas rápidas mudanças do nosso tempo.” – NMI 44.

Espaços de comunhão que hão-de ser aproveitados e promovidos a todos os níveis, dia a dia, no tecido da vida de cada Igreja. Mesmo conscientes de que as estruturas de participação e comunhão são consultivas e não deliberativas, a teologia e a espiritualidade da comunhão promoverão uma recíproca e eficaz escuta entre Pastores e Fiéis, inspirando a confluência de decisões ponderadas e compartilhadas.

“Com tal finalidade, é preciso assumir aquela antiga sabedoria que, sem prejudicar em nada o papel categorizado dos Pastores, procurava incentivá-los à mais ampla escuta de todo o povo de Deus. É significativo o que São Bento lembra ao abade do mosteiro, ao convidá-lo a consultar também os mais novos: É frequente o Senhor inspirar a um mais jovem um parecer melhor. E São Paulino de Nola exorta: Dependemos dos lábios de todos os fiéis, porque, em cada fiel, sopra o espírito de Deus.” – NMI 45.

E o santo Padre conclui, de forma inequívoca: “Desta forma, se a ciência jurídica, ao estabelecer normas precisas de participação, manifesta a estrutura hierárquica da Igreja e esconjura tentações de arbítrio e injustificadas pretensões, a espiritualidade da comunhão confere uma alma ao dado institucional, ao aconselhar confiança e abertura que correspondem plenamente à dignidade e responsabilidade de cada membro do povo de Deus.” – NMI 45.

Querubim Silva