Jesus Cristo e Zefirelli

Reflexão Terão perguntado ao cineasta Zefirelli onde foi ele buscar o segredo do seu jeito de falar da vida, em filmes mais ou menos notáveis. À laia de resposta, ele teria contado: era mais um filho que só vinha atrapalhar a vida na família, ao que parece numerosa e sem condições adequadas. Nada mais natural que se aplicasse o grau máximo de correcção para um falhado planeamento familiar. Toda a gente estaria de acordo, especialmente o pai. Mas a mãe de Zefirelli apostou nos riscos de mais uma aventura, e aí começaram muitas produções cinematográficas de qualidade.

Moral da história: a vida – e especialmente a vida humana – é uma energia que nos ultrapassa, mas que nós, com todas as potencialidades de que dispomos e que vamos aperfeiçoando, temos a obrigação de gerir, com o objectivo de sempre maior «qualidade de vida». Se eliminamos um projecto de vida, e mesmo se eliminamos uma vida já «a funcionar» com ou sem projecto, cumpre-nos a nós «adultos» reflectir sem medo e sem preconceitos sobre o que deve ser para nós a guerra da vida, em que há mortes a chorar. Se a nossa razão, livre de pressões externas, nos leva a pensar como mais plausível uma estratégia apenas de «menos morte», terá que ser em nome da VIDA PARA TODA A HUMANIDADE e não por egoísmo ou para defender «raças puras». A pressão do pai de Zefirelli sobre a mãe é um caso demasiado comum de machos dominadores – ainda uma tentação até em grupos políticos, religiosos, «intelectuais»…

E Jesus Cristo? S. José não foi «machista» como o pai de Zefirelli – mas não podia estar mais em desacordo com aquele filho totalmente fora dos programas! Acusaremos o «arcanjo Gabriel» – que apresentou a gravidez de Maria como facto consumado, sem volta a dar? De modo algum: «arcanjo» significa «mensageiro importante», em nome da Vida. Mas Gabriel pode simbolizar a linguagem daqueles que se acham detentores de uma verdade que oprime como grilhões: tens que fazer isto ou aquilo, porque é vontade de Deus (ou do Governo, ou do Bispo, ou do Premio Nobel, ou do «Homem das massas»…). Como vemos, já desde a sua concepção e primeiros anos de vida, a existência de Jesus foi marcada pelo «sinal de contradição» (Lc.2,34). A trapalhada era tão grande que Maria e José precisaram da ajuda de um arcanjo…

Moral da história: A Vida (o nome laico de Deus) «chama-nos desde o ventre materno» (Jr.1,5). O progresso do nosso saber teórico e prático torna-nos mais responsáveis pela procura incansável de ambientes humanos, onde o «chamamento da vida» possa ser escutado com alegria e DISCERNIMENTO.

A grande energia da natureza humana é a capacidade e tropismo para a mudança. É claro que há mudanças para bem e para mal. Mas impedir a mudança é matar a própria sede de mais e melhor vida. E uma pessoa mostra o seu valor ao querer e aceitar as mudanças dolorosas no modo de pensar e agir.

O mais «grave pecado contra a natureza» é pois traçar limites à razão e curiosidade humanas: é combater os projectos de planeamento familiar e de fruição do prazer sexual, libertos da angústia de despoletar um filho não oportuno, impedindo a evolução de técnicas anticonceptivas. Como também é contra a natureza preferir não pensar e entregar-se preguiçosamente a propostas nada angélicas de «arcanjos no poder».

Vou votar «não» – mas é sobretudo um «não» ao referendo: a «mudança» proposta esconde jogadas políticas para obter dividendos de poder, não recuando perante a informação falsa, o «dividir para reinar», lançando os portugueses para as bandeiras do Sim e do Não, em hordas quantas vezes histéricas e mercenárias. Alimentou-se um clima assente em demagogias, fanatismos de toda a espécie, preconceitos culturais, radicalismo religioso, ignorância, anticlericalismo primário, velhas desforras sentimentais e ideológicas, egoísmo… meu Deus, vai mesmo uma grande trapalhada! O espectáculo é muito mais triste com a escandalosa falta de cultura e educação da parte de políticos, padres e até bispos.

A efectiva mudança de atitudes para combater as condições de vida desumanas não se limita a «manifestos de compaixão». Quantos vão ao encontro dos homens e mulheres que sofrem – alguns para provocar aborto (com razões ou não) e muitíssimos mais para não provocar aborto (também, muitas vezes, sem pensar as razões)? Continuamos a esconder o grande projecto que nos incomoda: O PROJECTO DA EDUCAÇÃO, que habilite a pensar, agir e trabalhar EM LIBERDADE. É um projecto de todos e não só das «pessoas importantes», muito menos de «governantes», que nem sempre são escolhidos entre as pessoas bem educadas…

Pelo seguro, já encomendei um «super-arcanjo», que me ensine o que é a morte no projecto da vida. Mas só o consigo escutar num ambiente produtivamente calmo, um ambiente de restauração da liberdade.

Manuel Alte da Veiga