Joana… a louca

Poço de Jacob – 79 Na história do mundo e da Igreja, aparecem muitas Joanas, todas muito especiais e cada qual com o seu ar de santo e de louco, pelo menos nos conceitos de juízo dos homens. Vamos considerar algumas delas e veremos como a história de Deus na vida dos homens passa pela loucura que trouxe Deus à terra para se fazer homem, morto numa cruz, por amor, e ressuscitado da morte.

Nos finais do século XV, os reis católicos de Espanha tiveram uma filha a quem deram o nome de Joana. A história e a lenda nem sempre coincidem, mas, casada com Filipe de Flandres, esta mulher foi encerrada por seu filho num castelo de Tordesilhas, vivendo até os 87 anos em amor e ciúmes pelo seu marido que nunca lhe fora fiel. Louca de amor por um homem que era de muitas, Joana é na Espanha um ícone de dedicação romântica que concorre com os Amantes de Teruel, que teriam inspirado Shakespeare no famoso “Romeu e Julieta”. Vale a pena ir a Teruel contemplar, na catedral, a história verídica deste caso de amor louco que povoa os sonhos de casais apaixonados em todo o mundo.

Também em 1491, perto de Madrid, surge outra Joana, chamada de Joana da Cruz, que, não aceitando casar-se com o jovem que lhe fora preparado por seus pais, foge e refugia-se num beatério, algo muito usual na época em toda a Europa (como as famosas beguinas da Bélgica, Holanda e Alemanha) e aí acaba fundando um mosteiro a partir do qual, embora tal nunca se tivesse registado na época, faz-se pregadora da palavra, até para cardeais e reis, e pároco de Cubas de la Sagra, recebendo os benefícios paroquiais e tratando das almas com a ajuda do capelão da paróquia, pois o pároco era ela. Uma mulher pregadora e pároco, nesta época, sabia a loucura. A perseguição aconteceu mas ela manteve-se firme no seu posto, como é próprio dos loucos. O povo chama-a santa. A Igreja considera-a venerável. O seu túmulo é lugar de peregrinação. E chamam a Cubas, por vários motivos “a Lourdes de Espanha”, bem ali ao lado de Madrid.

Em 1412, uma outra Joana apareceu na França e foi mulher-soldado, coisa de loucos para uma Idade Média que colocava a mulher somente na situação de freira ou mulher que dá filhos ao marido, o qual, normalmente, não a amava. Joana D’Arc dispensa apresentações no seu papel na Guerra dos Cem Anos. A sua morte na fogueira foi decretada pela igreja, influenciada por políticos corruptos. A sua imagem precisou de 500 anos para ser reabilitada na Igreja e no mundo, pois o que se disse dela nesses anos foi que era louca e bruxa. Só em 1909, com a beatificação, Joana começou a ser considerada como daqueles loucos que mudam a história ao se deixarem mover pelo braço de Deus. E passou a ser padroeira da França em 1922.

Também em França, no séc. XIX, outra Joana, Joana Jugan, negando o matrimónio com um pretendente que a amava, dedica-se aos pobres e funda uma comunidade com a ajuda de um sacerdote. Qual Teresa de Calcutá, outra louca, visto que há muitas com o nome de Teresa, Joana foi reconhecida pela sociedade e premiada com algumas condecorações que ela usava para os seus pobres. O gesto atraiu a inveja do sacerdote que a havia auxiliado. Este submeteu-a a toda a classe de humilhações, obrigando-a a numa vida escondida e esquecida até sua morte. Joana foi reabilitada na memória quando as queixas de muitos fiéis chegaram ao Vaticano e o tal padre foi retirado da ordem. João Paulo II beatificou-a em 1982.

Em 1641, uma outra Joana, a de Chantal, colaboradora de S. Francisco de Sales, depois de um casamento, de quatro filhos e de uma viuvez aos 28 anos, fundou a Ordem da Visitação, tendo ela mesma abraçado a vida religiosa quando os filhos já estavam crescidos. Dizem que quando quis entrar no mosteiro um dos filhos se deitou no chão e disse que só ali entraria se passasse por cima dele, o que ela fez sem hesitar. Coisa de loucos, ou lenda, para mostrar como os loucos de Deus deixam tudo para O servir só à Ele.

E finalmente, em Aveiro, no Mosteiro de Jesus, nascida em 1452, regente de um trono real, pretendida por promissoras coroas e cortes luxuosas, temos a nossa Joana, que é a santa que nunca passou de beata e que terá feito de Aveiro o seu local preferido para se recolher no amor de toda a sua vida. Os historiadores dividem-se em afirmações e conjecturas, mas seja como for que tenha sido a nossa Joana Princesa, teve as suas virtudes reconhecidas pela Igreja. Era amada pelas gentes de Aveiro, foi louca de amor pelos pobres e por Deus, sob a inspiração de S. Domingos. Precisa de ser reabilitada na Diocese, pois o nosso povo não a venera o suficiente. A maioria nunca visitou o seu túmulo, uma obra de arte tumular das mais belas do mundo. Joana, que na Glória só não é o nome da paróquia onde repousa, intercede por nós, gentes de Aveiro. E gostaria de ser aclamada santa, quem sabe numa canonização em 2013, ano jubilar diocesano. Por minha parte vou lá vê-la muitas vezes, sobretudo em duas manhãs para mim sagradas: a de Quinta-Feira Santa, onde lhe entrego o nosso presbitério com o Sr. Bispo e Bispos, e no dia 12 de Maio, onde me deixo envolver pelo perfume das rosas enquanto a Missa se celebra na Sé.

Que ela, com suas colegas de loucura, nos ajudem a sermos loucos de amor também.

P.e Vitor Espadilha