João Paulo II, santo, místico em oração

Beatificação O cardeal português José Saraiva Martins conheceu de perto João Paulo II, recordado como um “místico”, muitas vezes desligado do tempo quando se encontrava em oração. O Papa polaco nomeou-o prefeito da Congregação para a Causa dos Santos a 30 de Maio de 1998, cargo em que foi confirmado por Bento XVI e que desempenhou até 9 de Julho de 2008. O prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos era o responsável por este processo quando a causa de beatificação de João Paulo II começou, em 2005. Entrevista conduzida pela Agência Ecclesia.

A oração foi o motor da vida de João Paulo II? Que episódios recorda?

Cardeal José Saraiva Martins – Ele era um homem de oração, sem dúvida, que se recolhia frequentemente para rezar, e era uma oração contagiosa. Para mim era um grande místico. Quando começava a rezar, esquecia-se de tudo o resto, para ele não existia mais nada, tive muitas experiências nesse sentido. Por exemplo, quando ia almoçar com ele, por motivos de trabalho, antes do almoço ele levava-nos sempre à sua capela privada: chegávamos lá, ele ajoelhava-se e estava lá muitíssimo tempo, como se nada existisse além de Deus, completamente elevado ao céu.

É um místico, um verdadeiro místico, o espírito de oração foi uma das coisas que mais me impressionou nele, não só em Roma, mas também nas viagens apostólicas, em que muitas vezes acontecia a mesma coisa. De manhãzinha, cedo, ainda nós estávamos na cama e já ele estava na capela a rezar e à noite, também.

A beatificação ajuda a descobrir este lado mais íntimo, a espiritualidade própria de João Paulo II?

Certamente, porque uma das suas características é a espiritualidade, o profundo espírito de oração. Outra característica da sua espiritualidade é a fé, ele realmente vivia da fé, uma fé concreta, vivida, existencial, não abstracta.

A vida de João Paulo II foi toda iluminada pela fé, todo o seu pontificado foi uma expressão disso, o seu ministério apostólico não era mais do que a vontade que ele tinha de divulgar esta fé, em Cristo. O sentido das suas viagens consiste, essencialmente, na difusão do Evangelho da fé. Por isso, para mim, João Paulo II foi o maior missionário dos tempos modernos.

Do seu contacto com ele, o que é que o tocou mais?

A sua humanidade, uma humanidade que comovia. Já na sua primeira encíclica, «Redemptor Hominis», diz que o homem é o caminho da Igreja e no seu pontificado mais não fez do que estar ao lado do homem para promover a sua dignidade – muitas vezes profanada, ainda hoje, infelizmente -, para defender os seus direitos humanos, direitos fundamentais, sagrados, imutáveis, como dizia, e para ajudar o homem a realizar-se plenamente como tal.

A humanidade era uma das características fundamentais de João Paulo II. E porque é que era tão humano? Porque era realmente um santo.

Muitas vezes pensamos a santidade e a humanidade como realidades diferentes, opostas. Não é assim, isso é um erro: a humanidade e a santidade são duas realidades intimamente unidas entre si. Digo muitas vezes que a santidade não é mais do que a plenitude da humanidade, o santo é o que vive plenamente a sua humanidade, em toda a profundidade, em todas as suas consequências. Estas são, a meu ver, as principais características de João Paulo II, da sua espiritualidade.

Nesse sentido, impressionou-o a forma como o Papa interpretou à luz da sua fé a história da humanidade e os seus próprios sofrimentos?

Ele via tudo à luz da fé, tudo, absolutamente. Não só a sua vida, o seu apostolado, mas também os outros aspetos. Ele sofreu muitíssimo, sobretudo nos últimos tempos, mas sofria à luz da fé, procurava identificar-se com Cristo, reproduzir em si mesmo a Paixão. Isso é muito claro: para João Paulo II existia a fé e mais nada, tudo, tudo era visto à luz dessa fé.

É um exemplo maravilhoso, sobretudo quando há tanta falta de fé no mundo de hoje, é um modelo extraordinário.

Pessoalmente, esta beatificação tem significado especial para si, dado tratar-se de alguém com quem trabalhou de perto?

A beatificação de João Paulo II tem, naturalmente, um significado especial, porque Deus me concedeu a oportunidade de contribuir de maneira decisiva para ela. Quanto o Papa [Bento XVI] dispensou o período de espera de cinco anos após a morte, a 13 de Maio de 2005, eu emanei o decreto para que pudesse ter início imediatamente (“statim incipi”) o processo de beatificação nas dioceses de Roma e Cracóvia. Uma coisa curiosa é que o Papa depois anunciou oficialmente que tinha começado o processo de beatificação, num encontro com o clero romano, na basílica de São João de Latrão [Roma], lendo o meu decreto, que era o único documento jurídico que existia.

Portanto, dei início a este processo, depois, acompanhei-o durante três, quatro anos e é uma graça muito grande. Para mim, a beatificação de João Paulo II tem um significado especial, especialíssimo. O dia 1 de Maio é um dia verdadeiramente extraordinário.