Juntos no diálogo

Segundo a página do Vaticano na Internet, a Igreja Católica, através do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, “está empenhada num diálogo teológico internacional” com as seguintes “Igrejas ou Comunhões Mundiais”: Igreja Ortodoxa; Igreja Copta Ortodoxa; Igreja Malankara; Comunhão Anglicana; Federação Mundial Luterana; Aliança Mundial das Igrejas Reformadas; Conselho Mundial Metodista; Aliança Mundial Baptista; Igreja Cristã (Discípulos de Cristo); e alguns grupos pentecostais. Aqui fica um breve apontamento sobre cada um destes grupos.

Ortodoxos – Separados de Roma em 1054, embora as diferenças entre o cristianismo de cultura grega (Oriente) e o de língua latina (Ocidente), já se viessem sentindo desde o séc. IV. A Bíblia ortodoxa é igual à católica. Os ortodoxos consideram inovações os dogmas católicos após 1054 (Purgatório, Imaculada Conceição, Infalibilidade Papal, por exemplo). Para eles, o Papa é apenas um dos patriarcas. A liturgia tem um papel fundamental (“ortodoxia” quer dizer “louvor verdadeiro”), ao contrário da evangelização e da caridade. O cântico não admite instrumentos. As igrejas estão decoradas com ícones. Os sacramentos são sete (“mistérios”). Cada igreja é autónoma (autocéfala), sob a autoridade do colégio dos bispos de um país e agrupadas em quatro patriarcados: Constantinopla, Alexandria; Antioquia e Jerusalém (Roma era o quinto). Os padres podem ser casados. Há mosteiros, mas não ordens religiosas.

Igreja Copta – Implantados no Egipto e na Etiópia, separaram-se de Roma com o concílio de Calcedónia (451). Dependem do patriarcado de Alexandria. São monofisistas, isto é, defendendo que em Cristo há uma só pessoa (como os católicos), afirmam que há nele uma única natureza, a divina (e não duas, como todas as outras correntes cristãs). Uma minoria copta religou-se com a Igreja Católica em 1895, os chamados Uniatas (termo que também se aplica a outros ortodoxos). Em 1951, Pio XII declarou que o monofisismo dos coptas é verbal e não real.

Igreja Malankara – Esta Igreja teve origem na separação dos cristãos de rito Malabar (Índia), em parte por causa da latinização forçada pela evangelização portuguesa na Índia. Em 1932, dois bispos, um padre e um diácono regressam à comunhão católica, tornando-se a Igreja Católica Siro-Malankara (400 mil fiéis na região de Kerala, Índia). Persiste, no entanto, uma Igreja Malankara, espiritualmente próxima da Igreja Jacobita de Antioquia (ortodoxa). Segundo a tradição, o cristianismo chegou á Índia por meio do apóstolo Tomé.

Comunhão Anglicana – Nasceu da recusa da autoridade papal por Henrique VII, em 1543. A liturgia é orientada pelo “Prayer Book”, de 1549. A regra de fé resume-se a 39 artigos, promulgados em 1571, de orientação protestante. O anglicanismo, com cerca de 61 milhões de fiéis, está presente principalmente nos países da Common-wealth e nos EUA (onde é conhecido por episcopalismo). Há três correntes no anglicanismo: a “Igreja Baixa” (“Low Church”), tendência mais protestante, hoje muito influenciada pela corrente evangélica; a “Alta Igreja” (High Church), onde são valorizadas as tradições antigas, o episcopado e a liturgia; e a “Igreja alargada” (“Broad Church”), corrente mais liberal. A ordenação de mulheres, a partir da década passada, dificultou o diálogo ecuménico com os católicos.

Federação Mundial Luterana – Reúne várias igrejas que têm como denominador comum as bases doutrinais de Martinho Lutero (1483-1546). São protestantes e evangélicas: Protestam dos desvios introduzidos ao longo do tempo na Igreja e querem voltar ao Evangelho puro. Lutero pretendia voltar à fonte inicial (Sola Fides, Sola Scriptura, Sola Gratia, Solus Christus), realçando a total soberania da Bíblia sobre qualquer autoridade, fonte religiosa ou tradição. Para os luteranos, não há sacerdócio ministerial. Há pastores e bispos (temporários), em razão do ofício, e apenas dois sacramentos: Baptismo e Santa Ceia. Não há devoção aos santos. Valorizam muito a interpretação individual da Bíblia (“livre exame”) e negam o poder do Papa na Igreja.

As igrejas luteranas (70 milhões de fiéis) estabeleceram-se a partir do séc. XVI na Alemanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia e daqui espalharam-se por todo o mundo.

Aliança Mundial das Igrejas Reformadas – Reúne várias igrejas herdeiras da doutrina e tradição da João Calvino (1509-1564). Na Holanda, França, Suíça e outros países europeus, recebem o nome de “reformadas”. Nos países anglo-saxónicos, chamam-se “presbiterianas”. O calvinismo afirma o poder absoluto de Deus, por um lado, e a corrupção da natureza humana. Daí a predestinação, doutrina segundo a qual Deus, desde o princípio, teria votado uns à salvação e outros à condenação. Os calvinistas aceitam o Baptismo e Santa Ceia, simbólica (e não real), realizada pelo Espírito Santo. Quando o presbítero diz “Isto é o meu corpo”, deve antes entender-se “Isto significa o meu corpo”. Nas igrejas reformadas, há leigos e quatro ministérios: pastores, diáconos, anciãos e doutores. Os calvinistas (70 milhões de fiéis) preocupam-se muito com as questões sócio-políticas.

A Aliança Mundial das Igrejas Reformadas integra ainda as Igrejas Congregacionalistas (nascidas do anglicanismo, mas doutrinalmente próximas do calvinismo, muito presentes nos EUA), cuja principal característica é a plena autonomia do núcleo local (congregação, assembleia de crentes), isento de qualquer controlo superior, seja de tipo burocrático, litúrgico ou doutrinal.

Conselho Mundial Metodista – Reúne as Igrejas Metodistas de 90 países (50 milhões de fiéis). O metodismo nasceu em ambiente anglicano, como resultado do despertar religioso levado a cabo por John Wesley (1703-1791). O nome provém do método ou ordem de vida levado pelo fundador: leituras metódicas do Novo Testamento, jejuns em certos dias, exame de consciência diário, austeridade no vestir, visitas a doentes, pregação… No metodismo, a Bíblia é a autoridade suprema, interpretada pelo indivíduo, e insiste-se em três momentos que são o fundamento da vida cristã: conversão, justificação e santificação. Os metodistas têm dois sacramentos, o Baptismo e a Santa Ceia, e valorizam a acção social e a pregação da Palavra, reforçada por hinos cantados por toda a assembleia (muitos dos “espirituais negros” são hinos das igrejas metodistas norte-americanas). Estão divididos em “clas-ses” (grupos de dez pessoas), que formam uma “sociedade”, cuidada por um pastor. Acima das “sociedades” há o “circuito”, governado pelo superintendente ou bispo. Os “distritos” (com um presidente) agrupam “circuitos”.

Aliança Mundial Baptista – Reúne 50 milhões de fiéis (metade nos EUA). A igreja baptista nasce na Europa (os ingleses John Smith e Thomas Helwys fundam comunidades respectivamente na Holanda e em Londres, no início do séc. XVII), mas floresce nos EUA, principalmente entre emigrantes pobres e negros, devido ao biblicismo e à simplicidade litúrgica e ao emocionalismo das assembleias. As igrejas baptistas, governadas por pastores e anciãos eleitos pelos membros, são muito independentes. Têm dois sacramentos: a Santa Ceia, concebida como simples recordação, e o Baptismo, administrado por imersão e só aos adultos que tenham proclamado Cristo como seu Senhor e Salvador.

Igreja Cristã (Discípulos de Cristo) – Surgiu nos EUA, em 1832, como junção de dois movimentos: a tentativa de Barton W. Stone reformar e simplificar o Presbiterianismo (calvinismo), a que deu o nome de, simplesmente, “Igreja cristã”; e o movimento de Thomas Campbell e Alexander Campbell, inicialmente próximo da Igreja Baptista, chamado “Discípulos”. Tem cerca de um milhão de fiéis nos EUA e Canadá.

A Igreja Cristã (Discípulos de Cristo) – é assim a denominação oficial – adoptou o baptismo por imersão, e celebra a Ceia (não um sacramento, mas uma festa memorial) todas as semanas. Têm diáconos (zelam pelos aspectos materiais) e anciãos ou bispos (zelam pelos aspectos espirituais). A fé desta igreja centra-se na aceitação de Jesus Cristo como Senhor e Salvador. É incentivada a liberdade de crença apoiada na Bíblia.

Pentecostais – O primeiro grupo pentecostal nasceu em Los Angeles, em 1906, na escola bíblica do pastor baptista Charles Parham. Actualmente, há imensos grupos pentecostais ligados ou separados das denominações protestantes que lhes deram origem, como os metodistas e os baptistas, mas também os anglicanos e os luteranos. Comum a todos esses grupos pentecostais ou pentecostalistas, há o traço do “Baptismo no Espírito Santo”, uma experiência individual de Deus vivida pessoalmente ou em grupo. As assembleias pentecostais são muito emocionais e pouco dadas à reflexão intelectual. Aliás, o pentecostalismo nasceu como reacção ao cristianismo liberal e demasiado racionalizado. Muito diversos, espalhados pelo mundo e em grande crescimento na América Latina, os pentecostais reúnem 60 milhões de fiéis (sem incluir o Renovamento Carismático Católico, que, tendo algumas semelhanças com o pentecostalismo, mantém plena comunhão com a Igreja Católica). Com alguns desses grupos a Igreja Católica mantém diálogo ecuménico.