Ecumenismo é viver segundo o Evangelho, diz Bento XVI

Bento XVI afirmou como prioridade do seu pontificado o reforço do diálogo ecuménico. Disse-o no dia seguinte à eleição e mostrou-o no encontro ecuménico na Alemanha

“Penso que não existem dúvidas em considerar-vos verdadeiramente irmãos, que nos amamos e nos sentimos juntos testemunhas de Jesus Cristo”, disse Bento XVI no encontro ecuménico ocorrido no palácio episcopal de Colónia (Alemanha), a 19 de Agosto de 2005, durante a sua primeira viagem fora de Itália.

Oriundo da Alemanha, tal como o maior reformador – Martinho Lutero – Bento XVI, segundo as suas próprias palavras, conhece bem a “situação dolorosa que a ruptura da unidade na profissão da fé causou a tantas pessoas e famílias”. Daí que, nesse encontro, tenha apontado uma direcção para o movimento ecuménico: “Depois do esclarecimento relativo à Doutrina da justificação, a elaboração das questões eclesiológicas e das questões relativas ao ministério é o obstáculo principal que deve ser superado”. Por outras palavras, depois do entendimento entre católicos e luteranos sobre a acção salvadora de Jesus, o diálogo tem de prosseguir sobre a identidade, função e missão da Igreja. Mas Bento XVI acrescenta um outro aspecto. É necessário um entendimento sobre o agir moral dos cristãos, sobre a ética: “Devido a contradições neste campo, o testemunho evangélico e a orientação ética que devemos aos fiéis e à sociedade perdem vigor, assumindo com frequência características vagas, e assim não cumprimos o dever de dar ao nosso tempo o testemunho necessário. As nossas divisões estão em contraste com a vontade de Jesus e fazem com que não sejamos fidedignos perante os homens. Penso que deveríamos empenhar-nos com renovada energia e dedicação a dar um testemunho comum no âmbito destes grandes desafios éticos do nosso tempo”.

A melhor forma de ecumenismo

Para quem tenha dúvidas sobre o que pode ser o diálogo para a unidade de todos os cristãos, Bento XVI deixou esclarecimentos: não é renegar a própria história da fé; não significa uniformidade em todas as expressões da teologia e da espiritualidade, nas formas litúrgica e na disciplina. É antes unidade na multi-plicidade e multiplicidade na unidade; é intercâmbio de pensamentos e de dons (“as Igrejas e as comunidades eclesiais podem pôr à disposição os seus tesouros”); é oração, santificação, conversão. Perto do final da sua comunicação, Bento XVI deixa uma frase sobre o diálogo ecuménico que agradaria a qualquer reformador: “A melhor forma de ecumenismo consiste em viver segundo o Evangelho”.

Como agir?

A divisão dos cristãos é um contra-sinal para o mundo. Felizmente, estão afastados os tempos de ódio de morte entre cristãos de diferentes confissões. Mas ainda falta muito para a unidade desejada pelo fundador do cristianismo: “Que todos sejam um. Como Tu, ó Pai és um em Mim e Eu em Ti, assim eles sejam um em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste”.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, para recuperar a unidade, “dom de Cristo” e “apelo do Espírito Santo”, exige-se:

– uma renovação permanente da Igreja, numa fidelidade maior à sua vocação;

– a conversão do coração, com o fim de viver em mais pureza segundo o Evangelho, porque o que causa as divisões é a infidelidade dos membros ao dom de Cristo;

– a oração em comum;

– o mútuo conhecimento fraterno;

– a formação ecuménica dos fiéis, e especialmente dos sacerdotes;

– o diálogo entre os teólogos, e os encontros entre os cristãos das diferentes Igrejas e comunidades;

– a colaboração entre cristãos nos diversos domínios do serviço dos homens.

Luzes e sombras no caminho

“É cruel, mas justa, a palavra daquele americano que comparava esta celebração [a oração ecuménica na Semana da Unidade] à de um homem e uma mulher que todos os anos celebrassem o aniversário do seu noivado e não decidissem casar…”, escrevia Yves Congar, teólogo católico, em 1981, nos seus “Ensaios ecuménicos”. Mais recentemente, em 2004, o Cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, apontou as luzes e sobras no caminho ecuménico.

Luzes:

– crescimento da consciência ecuménica; palavras encorajadoras e actos convincentes de João Paulo II;

– os diálogos internacionais, regionais e locais eliminaram muitos desentendimentos e preconceitos e estabeleceram amizades;

– a convivência e colaboração ecuménica passou a pertencer á vida eclesial quotidiana das paróquias e das dioceses;

– criação de grupos de oração ecuménica e redes espirituais entre mosteiros, conventos, comunidades e movimentos.

Sombras:

– persistência de antigos preconceitos;

– “activismo superficial ou uma questão de relações meramente formais de cortesia, de diplomacia, isto é, de burocracia”;

– o relativismo que descura a questão da verdade,

– o “fundamentalismo exercido por seitas antigas e novas, com as quais não é possível na maior parte dos casos estabelecer um diálogo que se distingue pelo respeito”;

– liberalismo doutrinal e ético, que gera novas divergências tanto dentro de comunidades não católicas como entre elas e a Igreja Católica.