Justificações não justificadoras

Questões Sociais No artigo anterior, abordou-se o fenómeno das super-remunerações e enumeraram-se alguns factores invocados para o justificar: a competência; a responsabilidade; as relações pessoais; a imitação e a emulação; e a suposta irrelevância dessas remunerações nas despesas globais das empresas. Estas alegadas justificações são efectivamente justificadoras? – Parece claro que não.

Em geral, o super-remunerado socorre-se de colaboradores vários, apropria-se das respectivas competências, tira partido da imagem pública pessoal, mesmo não verdadeira, e desencadeia, no interior da empresa, a reprodução dos mesmos comportamentos na cadeia hierárquica e contribui para que os traba-lhadores anónimos sejam sub-remunerados e menosprezados, mesmo quando são decisivos na empresa e na consecução dos seus resultados.

A alta responsabilidade dos administradores de topo fica muito aquém do que se imagina e nem sempre se traduz na aplicação de sanções adequadas pela não consecução dos resultados previstos e pelo desvio das orientações estabelecidas.

Por sua vez, as relações pessoais não proporcionam tantas vantagens à empresa quanto se supõe e envolvem, não raro, a prática de influência, «cunhas», de duvidosa legalidade e pouco dignificantes eticamente.

A imitação e a emulação de exemplos exteriores à empresa redundam, frequentemente, em remunerações sem correspondência no mérito; imitam-se níveis de remunerações e não a quantidade nem a qualidade de trabalho.

O peso supostamente irrelevante das super-remunerações nas despesas globais das empresas é altamente relevante em termos de injustiça, de competitividade e de oportunismo no interior da empresa e no mau exemplo no exterior. Não impede, e até provoca, movimentações para aumentos salariais superiores à capacidade de pagamento da empresa e, quase inevitavelmente, acha-se associado a repressões, por vezes imperceptíveis, para que eles não se desenvolvam.

Ao contrário do que os super-remunerados e seus ideólogos dão a entender, existe a possibilidade de políticas salariais diferentes, muito embora sejam inevitáveis as desigualdades. São possíveis políticas salariais baseadas na complementaridade de competências, na partilha de responsabilidades, na transparência de relações, na cooperação e na equidade. Alguns exemplos demonstram isso mesmo e, sobretudo, acha-se disponível um potencial imenso de desenvolvimento nesse sentido. O potencial de qualificação reconhecida e promovida, aliado à co-responsabilidade e congregação de esforços, encontra-se ao alcance de todas as empresas.