Lamentos de um cristão sobre as contradições que sente dntro de si mesmo

Meu Deus, que guerra cruel!

Em mim vejo dois homens:

Um quer que, cheio de amor por Ti,

Meu coração sempre te seja fiel;

O outro, às tuas vontades rebelde,

Revolta-me contra a tua lei.

Um, todo espírito e todo celeste,

Quer que, ligado constantemente ao céu

E tocado pelos bens do alto,

Para nada conte todo o resto;

O outro, com seu peso funesto,

Mantém-me agarrado bem à terra.

Ai de mim! Em guerra comigo mesmo,

Onde poderei encontrar paz?

Quero e nunca cumpro.

Quero, mas — ó miséria extrema! —

Não faço o bem que amo

Não faço o mal que odeio.

Ó graça, ó raio salvador!

Vem tornar-me conforme comigo,

E, domando com um suave esforço

Este homem tão contrário a Ti,

Faz teu escravo voluntário

Este escravo da morte.

Jean Racine

Jean Racine (1639-1699) é, com Pierre Corneille, um dos maiores dramaturgos clássicos de França. Depois de escrever obras-primas como as peças “Andrómaca’’, “Britânico”, “Berenice”, “Mitrídates”, “Ifigênia” e “Fedra”, entre outras, abandonou o teatro e reconciliou-se com o cristianismo que havia seguido em Port-Royal (jansenismo).