Poço de Jacob – 71 Em plena Quaresma deste ano, o mês de S. José apresenta-nos a figura deste homem singular, como modelo para a nossa caminhada rumo à Páscoa. S. José terá vislumbrado o mistério de Cristo. Talvez não tão intensamente como Maria, até porque Nossa Senhora é testemunha da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, e esteve no Pentecostes como beneficiária da vinda do Espírito Santo, que revelaria toda a Verdade, como prometeu Jesus. Maria esteve também na perseguição da Igreja, como vítima, e nas primeiras elaborações teológicas, das quais terá tido notícia e até poderá terá sido consultada. S. José coloca-se na linha dos Patriarcas, que vislumbraram o mistério acenando para ele, de longe, embora, bem mais perto do que Abraão, Isaac e Jacob, que, como disse Jesus, quiseram ver o mistério de Cristo e não viram. Por isso, com a rainha de Sabá, se levantarão contra os homens da geração de Jesus que não o viram maior que Salomão.
José conviveu com Jesus. A última referência bíblica é quando O perde no Templo. Sabemos que Jesus era submisso a José. É a Bíblia que o diz. E não é difícil imaginar a morte do santo varão entre os dois luzeiros que são Jesus e Maria. Mas, a José, como a Maria e até a cada um de nós, Deus pediu a caminhada de fé que é aderir incondicionalmente ao Mistério de Cristo. José foi crescendo no conhecimento deste mistério que ele tinha vivo e palpitante, em forma de menino, debaixo de seu tecto. José teve de ensinar a Jesus, supomos, a sua arte profissional e com Ele ia à sinagoga e o sentava do seu lado. Com Ele caminhava pelos campos e partilhava as refeições. Com Ele passava as noites de sono ou de insónia… E todas as dificuldades da vida. E tinha de ver que este menino não era fruto da carne nem do seu sangue. Que lhe tinha sido dito que era Filho de Deus, gerado pelo Espírito Santo. José fez a opção livre de O receber na sua vida, com a sua mãe… e que tinha de ter a consciência de que Jesus tinha um Pai verdadeiro, o qual lhe tinha confiado o tesouro do seu próprio Filho.
É fácil penetrar no mistério de Cristo quando estamos num retiro ou numa oração intensa e, se consolados, melhor. Mas a vida do dia-a-dia é árida para todos nós. O cair da tarde causa-nos, muitas vezes, sentimentos de angústia que nos falam do peso do existir e do acreditar sem ver, sobretudo quando nosso coração está carregado de luto, dor, depressão, tristeza e até pecado. O sim de José foi para sempre. Ainda que não entendesse o porquê de o Filho de Deus ter de fugir para o Egipto, ou de ter de crescer igual a nós em tudo, José ali esteve, firme, amando no seu coração, com amor de homem-esposo e pai, esta Família que Deus lhe confiou.
S. José é modelo de quem caminha na fidelidade, abnegação, trabalho, silêncio e renúncia do eu, na mortificação, na penitência, na conversão que nos leva à plenitude do conhecimento de Cristo, na caridade de quem serve apenas, de quem ora ao Pai em segredo, de quem jejua do seu comodismo e do seu bem-estar para servir uma grande causa. São os convites da Quaresma da vida, que nos aponta a Páscoa como fim. S. José não viu o senhor ressuscitado na terra. Mas também não custa acreditar que ele foi o primeiro a quem Jesus introduziu no Céu quando ressuscitou, ainda antes do bom ladrão…
S. José é nosso modelo de ressuscitados, de homens novos e renovados à luz de Cristo salvador. Modelo de homem mariano. De homem trinitário. De fiel membro da Igreja.
Recomendo para esta quaresma, com S. José, a leitura dos dois volumes: “Jesus de Nazaré”, de Bento XVI. O segundo sai por estes dias. E a visualização do filme, “Jesus”, da Paulus, com Christian Balle no papel de Cristo. Este filme é magnífico ao nos apresentar um S. José bem ao jeito do Evangelho e da nossa caminhada rumo à santidade e à Páscoa da Ressurreição.
P.e Vitor Espadilha
