Liberdade de escolha (para as mulheres…)

Pensar a Vida Há dias, a propósito da possível data do referendo sobre o aborto, as nossas televisões mostravam mulheres a manifestar-se, empunhan-do cartazes onde se podia ler “Liberdade de escolha para as mulheres”. Fiquei espantado. O que a frase queria dizer, a coberto de uma (aparentemente) justa reivindicação, é “deixem-me impedir que o meu filho nasça, se for essa a minha vontade” (isto para não ser mais duro e traduzir por “deixem-me matar o meu filho, se assim desejar”, esquecendo-se essas mulheres que esse ser – para alguns um “amontoado de células” – também pertence ao pai e também está sob a protecção (?) da sociedade).

Vamos por partes, para não nos baralharmos:

1. O referendo é uma questão essencialmente política, inserindo-se numa cultura do facilitismo (tal como a eutanásia, a legalização das drogas leves, o casamento de homossexuais e a adopção de crianças por estes, etc.) que, neste caso, colide frontalmente com o direito mais fundamental do ser humano – o direito à vida. Pretendendo-se, entre outras coisas, que a mulher abortista não seja penalizada, não há registo, até ao momento, de qualquer mãe condenada pelo facto de ter cometido tal acto.

2. A lei actual já é extremamente abrangente e, com ligeiras habilidades, cobre (infelizmente!) a quase totalidade das situações. E não creio que as mulheres, desde a aprovação desta lei (já com alguns anitos), estejam mais livres e mais felizes. Pelos vistos não.

3. Mesmo discordando com um referendo desta natureza, porque a vida não é “referendável” (nesta perspectiva, não entendo como é que os nossos bispos aceitam o referendo, só discordando que seja realizado antes das eleições presidenciais), não posso deixar de ficar admirado pelo facto de, meia dúzia de anos passados sobre o último referendo, voltarmos a votar a vida. Se acaso tivesse ganho o “sim ao aborto”, será que esses e essas democratas aceitavam, de novo, o veredicto popular? Creio bem que não.

4. Como vivemos em tempos atravessados por intensos ventos paradoxais, aqui vai mais uma ligeira brisa (que se devia transformar em ciclone): os mesmos e as mesmas que no Parlamento ou na rua apelam à liberdade de escolha (para matar), são os mesmos e as mesmas que, noutros âmbitos, bem mais educativos, atrofiam e condenam a liberdade de um pai ou de uma mãe escolher a escola e o tipo de educação para os seus filhos, sem encargos adicionais (também se chama a isto “liberdade de escolha”). Curioso, não é?

O próximo referendo é uma questão de vida ou de morte! Empenhemo-nos em proclamar o “Evangelho da Vida” nas nossas famílias, nos nossos locais de trabalho, nas escolas, nas catequeses, nos grupos de jovens, para evitarmos males terríveis (com ou sem “despenalização” do aborto).

Embora esta questão não seja do foro estritamente religioso, nós, cristãos, temos responsabilidades acrescidas. E não são poucos aqueles que, frequentando as nossas igrejas, se deixam levar por esta mentalidade light, a pretexto de serem modernos e “democratas”…

Enquanto não apostamos fortemente na prevenção, vamos remediando o melhor possível este flagelo, acolhendo generosamente as mães solteiras, os filhos indesejados, as mulheres (e homens!) vítimas de maus-tratos. Aqui, a jusante, não há lugar para ressentimentos, para exclusões, para amuos. Deste lado, só cabe o Amor, traduzido, naturalmente, em obras.

Jorge Cotovio