Liberdade e religião

O Papa Bento XVI é surpreendentemente oportuno nas suas intervenções, subejamente profundo, sem descurar a universalidade da sua compreensão. Foi o que mais uma vez aconteceu no sue breve discurso, na cerimónia de boas-vindas, ocorrida no Castelo de Bellevue, em Berlim.

A temática central é a intrínseca relação entre religião e liberdade. E isto porque a crescente indiferença religiosa leva as sociedades a desprezarem a verdade ou considrá-la mesmo um obstáculo às suas decisões, que acabem por ser determinadas por considerações utilitaristas.

“A liberdade precisa duma ligação primordial a uma instância superior. O facto de haver valores que não são de modo algum manipuláveis, é a verdadeira garantia da nossa liberdade”. Os jogos de interesses pessoais ou de grupos tornam impossível uma efectiva liberdade, faltando esta “autoridade reguladora externa”, único garante de uma conjugada interacção de direitos e deveres.

Sem uma base vinculativa para a nossa convivência, degladiam-se os egoísmos e prevalece o individualismo selvagem. Um dos “fundamentos para uma convivência bem sucedida é a religião”. E o Santo Padre cita o grande bispo e reformador social Wilhelm von Ketteler: “Assim como a religião precisa da liberdade, assim também a liberdade precisa da religião”.

É evidente que os espíritos anarquistas – e essa aragem passa por uma imensa multidão de contemporâneos, avessos a qualquer “autoridade” – rejeitarão qualquer forma de regra superior. A sociedade da anomia está instalada no coração de muita gente, jovem e menos jovem, porque é muito mais conveniente ser regra de si próprio.

“O homem que se sente vinculado à verdade e ao bem estará imediatamente de acordo com isto: a liberdade só se desenvolve na responsabilidade face a um bem maior. Um tal bem só existe para todos juntos; por conseguinte, devo interessar-me sempre também pelos meus vizinhos. A liberdade não pode ser vivida na ausência de relações”.

Quantas consequências brotam destas sábias palavras: para o relacionamento familiar, para as relações de proximidade, para o desenvolvimento do voluntariado, para os projectos educativos, para a concertação social… E, em momentos de crise, a voz de Bento XVI deveria ser tomada a sério, como o conselho amigo, como o rumo apontado, para desanuviar o presente e desenhar o futuro sob um sol radioso.

O contributo de todos, a crítica, a discordância são importantes e necessários. Mas é indispensável o concerto definitivo, liberto de interesses pessoais ou corporativistas, limpo de jogos ocultos e sub-reptícias clientelas. “Na convivência humana, a liberdade não é possível sem a solidariedade”.