Liberdade responsável

Questões Sociais Existe um entendendimento segundo o qual a liberdade não consiste na libertação de instintos: – consiste, sim, em cada pessoa responder por si, perante si própria, perante outrem, perante o universo e perante o transcendente, acreditando ou não em Deus. Este entendimento consolidou-se ao longo de séculos e acha-se muito difundido, mesmo onde predominam ideias consideradas modernas; ele resulta não só de imperativos éticos, mas também dos imperativos de viabilidade de todas as actividades humanas, particularmente na esfera familiar e em todos os domínios que implicam a assunção de responsabilidades. Pode, assim, falar-se de liberdade responsável: – não porque a responsabilidade limite a liberdade, mas porque faz parte integrante dela, sob pena de a deixar reduzida a impulsos incontrolados.

O liberalismo representou um grande surto histórico de afirmação da liberdade. Nascido sob a forma revolucionária, deparou com reacções várias, e ele próprio acabou por reagir através de impulsos deturpadores da liberdade. Fruto destes, bem como do confronto de valores e da correlação de forças sociais, a breve trecho se perfilaram vários tipos de liberalismo, com realce para o económico e para o moral: – o liberalismo económico traduziu-se na liberdade de iniciativa que, deturpada, chegou até à «exploração do homem pelo homem»; e o liberalismo moral traduziu-se na liberdade de agir que, também deturpada, chegou até à idolatria egoista do bem-estar humano. Uma parte significativa da população pouco beneficiou da deturpação destes dois liberalismos, e muita gente foi vítima da opressão exercida por ambos, até porque, no limite, as duas deturpações, quando levadas ao extremo, se instalaram nos circuitos do crime.

Devido a um paradoxo histórico insensato, estabeleceu-se, no pensamento dominante, que o liberalismo económico era de direita, favorecendo os grandes grupos económicos, e que o liberalismo moral era de esquerda, favorecendo os comportamentos «fracturantes». Por estranho que pareça, não se tomou consciência generalizada de que os dois liberalismos são da mesma natureza, nada têm a ver com a direita nem com a esquerda e, quando deturpados, constituem fundamentalmente expressões extremas de egoísmo e de irresponsabilidade.

A evolução desejável parece consistir no esclarecimento e na promoção da ética da responsabilidade, facilitadora da liberdade de todos os cidadãos; liberdade sem dependência dos impulsos da exploração económica nem do laxismo pessoal. Nesta perspectiva, é deveras preocupante o fatalismo difuso, observado perante os dois liberalismos deturpados; e é igualmente preocupante que os defensores de cada um ignorem que estão fazendo o jogo do outro. No fundo, convergem, mesmo contrapondo-se.

O liberalismo económico e o moral, na sua genuinidade e sem deturpações, brotam da liberdade responsável, que é fundamental na dignificação humana; há que aprofundá-la e difundi-la.